Aftersun e Skinamarink

Por olhos de criança, a ruína

Por Amanda Lana

Propus-me a falar de dois filmes aqui, mas começo com um terceiro: Um Dia na Vida (2010), de Eduardo Coutinho, que é uma viagem nostálgica e visceral pelo que era transmitido na TV aberta quando eu era criança. A brutalidade de várias faces da sociabilização brasileira passava batida pela minha consciência infantil. Foi chocante, mas de uma familiaridade quase calorosa. Reconheci vários momentos, mas revê-los com a cabeça de agora foi um tanto assustador. É também interessante refletir sobre estar à mercê da programação, de ir trocando de canal, pegando pedacinhos de cada coisa, que logo sumiriam. Na minha infância já existia home video e a internet era algo relativamente acessível, mas prevalecia mais na minha vida a experiência de assistir televisão todos os dias e ter essa relação etérea (na falta de um termo melhor) com aquele conteúdo, como se fosse a minha única chance de assisti-lo. O filme de Coutinho é ao mesmo tempo uma mimetização da dinâmica da memória, caótica, picotada e também cotidiana e um exercício de rememoração de momentos – sem medo de exagerar – formativos na companhia da televisão.

Aftersun (Charlotte Wells) e Skinamarink (Kyle Edward Ball), ambos de 2022, trazem na sua forma a criação de uma atmosfera de nostalgia, em sua veia mais melancólica e aflitiva, diretamente ligada à tecnologia da década de 1990 e a como essa maneira de criar memórias e viver momentos mediados por telas e gravações reflete em nossas relações interpessoais, nossos traumas e nossa concepção da vida. É a visão do desalento de crianças cujos pais estão perdidos, em todos os sentidos da palavra.

A protagonista de Aftersun, Sophie (Frankie Corio), relembra uma viagem que fez com Callum (Paul Mescal), seu pai, quando ela tinha 11 anos e ele 30, a idade que ela tem no presente. Ela assiste às gravações que fez com uma filmadora que seu pai havia levado. As memórias passam por diversos filtros, a adulta vê enquadramentos específicos de partes do que ocorreu, pelos olhos da criança que foi um dia. Ela produziu essas memórias, mental e “fisicamente”, e hoje as reinterpreta, transformando-as em algo novo, ao passo que, a cada recordação, tudo se embaralha novamente. A câmera é um instrumento de preservação de alguma objetividade do ato de lembrar. Ela mantém uma certa materialidade, apesar de nada ser completamente objetivo. E a ideia do tátil, estendendo-se o conceito o máximo possível, é recorrente – as memórias também vivem nos abraços, beijos, mãos, danças.

Wells cria momentos sensíveis e simples, em que testemunhamos a criação da memória, da filmagem, e voltamos para ela de outro ângulo. Assistimos ao que aconteceu e também ao que foi captado pela câmera, e temos dimensão de tudo que se ganhou e perdeu. Há uma comunicação bem clara da dinâmica um tanto relutante, porém extremamente amável, de pai e filha. A incapacidade de processar os sentimentos que transbordam são características comuns da garota e do pai. Eles têm 11, eles tem 31, tudo junto. A diretora transita maravilhosamente entre a melancolia profunda e a alegria pura e simples. Ela para, olha e deixa os momentos acontecerem, respeitando o impacto de cada pedacinho daquelas memórias.

As repercussões de ausências parentais, físicas e emocionais, e a solidificação de traumas e memórias em vídeo, são mais diretas, até mesmo literais, em Skinamarink. Ball remonta a um experimentalismo estático, lembrando Scott Barley e o recém-falecido Michael Snow, que compele pela atmosfera e pela insistência. De tanto encarar os cantos e corredores escuros, com o constante chiado da câmera de fundo e o grão, o terror começa a tomar forma na nossa cabeça. É incômodo não ver, mas igualmente ou pior ver.

There’s someone here. Duas crianças sozinhas em casa, acompanhadas de seus brinquedos e o fiel televisor. Algumas portas desaparecem, vozes são ouvidas, aparições bizarras se revelam, abrigadas pelas sombras. Nesse cenário, o filme explora a deformidade daquilo que vemos, já em estado de medo e tensão, através da penumbra. Os rincões sinistros das nossas próprias casas. Simplesmente crianças fazendo as coisas mais assustadoras que se pode fazer sendo uma criança sozinha em casa: olhar debaixo da cama e nos cantos dos cômodos. A ausência da segurança associada aos pais destrói a sensação de abrigo que existe no lar, e tudo pode acontecer. E a forma mantém uma consistente amorfia, uma distorção que vai do espaço físico, aos sons e as criaturas nele presentes, como um grande pesadelo. O “monstro” é pouco mais que um borrão, cuja presença se manifesta de forma mais incisiva pelos barulhos e vibrações da filmagem.

Inicialmente, me veio o ímpeto de descrever a tecnologia presente nos filmes como analógica, embora ela não o seja tecnicamente. Ao pensar em analógico, faço alusão mais a essa estética granulada, amadora e, principalmente, restrita ao seu suporte físico (a câmera de Callum e Sophie é digital, mas é ela que contém as filmagens, por exemplo). A representação da tecnologia da época embala essa impressão. Esse “analógico” funciona como uma representação material, tátil, da memória que permeia os dois filmes. É o conduíte da invocação de fantasmas de momentos e de relações. Em Aftersun, a perspectiva infantil é filtrada pela percepção da adulta que tenta ver algo a mais, que passou despercebido na infância. Aquilo que as filmagens preservam são pontos de partida da investigação, complementados pelos registros da “câmera da cabeça”. É a busca por uma verdade perdida no tempo. Por outro lado, Skinamarink trabalha apenas a perspectiva infantil e o pesadelo que as crianças vivem é perenemente documentado. A memória gravada não é reavaliada dentro da própria obra, ela é um retrato do caos, presente, de estar na cabeça daquelas crianças. É fútil buscar um sentido linear no que se vê quando se está em um estado em que o medo distorce tudo.

Existe um universo na dialética do que é e o que poderia ter sido, e é ele que realmente assombra. Em meio a tristeza, a felicidade, a descoberta, a confusão e o desespero, para bem ou para mal, tudo o que é importante fica, e temos que aprender a lidar com isso.