Produzir este número da revista Madonna nos fez acionar várias máquinas do tempo.
Com Vermelho Bruto fomos conduzidos pelas vozes distantes de Alessa, Fabiana, Eunice e Jô a penetrar os labirintos da maternidade no período da redemocratização brasileira. Quando encontramos a equipe do filme dirigido por Amanda Devulsky, conversamos sobre uma história esquecida do Brasil e a família de fantasmas que a habita.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Michel Mourlet, um dos últimos sobreviventes desse tão frágil e violento país chamado cinefilia, responde às perguntas dos jovens alunos da graduação de cinema da Universidade Paris 8. Um diálogo fascinante, cheio de ruídos, no qual testemunhamos o choque entre duas juventudes sempre em marcha.
Com o caderno crítico, realizamos a mais insólita viagem ao passado: a decalagem entre o fechamento das pautas e o lançamento da revista produz o bizarro efeito de retorno em bloco a um conjunto de filmes que foram assunto há meses atrás e, rapidamente, deixaram de ser. Esse salto no passado recente nos obriga a questionar a noção de “atualidade cinematográfica” e os desafios que esta impõe ao trabalho crítico.
É ainda com essas questões na cabeça que voltamos à primeira trilogia da série Pânico. Inspirados pelo lançamento do sexto filme da franquia, primeiro sem Neve Campbell, relemos esse tríptico a partir do seu motor emocional. A atriz/personagem narra uma história secreta: a sua.
Nas últimas páginas, realizamos a mais vertiginosa incursão ao passado: quatro anos atrás, no começo do mandato de Bolsonaro, entrevistamos Sylvie Pierre. Falamos majoritariamente de coisas que aconteceram nos anos 60 e 70 do século XX e daquilo que estava na ordem do dia naqueles dias. O diálogo convida o leitor a rememorar um momento complicado, mas que não pode ser esquecido.
Depois de um primeiro número sombrio (Female gothic, A filha perdida, Madres Paralelas), pretendíamos fazer uma edição mais luminosa, menor, mais rápida e mais leve. O oposto dos mamutes que vez ou outra são descongelados e que recebem o nome carinhoso de “revistas de cinema”. Mas a realidade, como sempre, é mais forte, embaralhando os esquemas e nos obrigando a reduzir violentamente o nosso ímpeto. Hoje, no Brasil, com a desprofissionalização do ofício e apesar das raras e valiosas exceções, apenas dois tipos de pessoas podem se dedicar à crítica de cinema: os que trabalham e levam a crítica como atividade secundária e os que não precisam trabalhar – o que determina de maneira flagrante os direcionamentos ideológicos dos textos. Fazemos parte do primeiro grupo e a atividade secundária acaba caindo para terciária, quaternária… até o abandono. Todos nós já vimos esse filme mil vezes.
E é por isso que todos esses retornos no tempo levam ao mesmo lugar: o nosso tempo. E é só nele que poderemos, enfim, avançar.
Avante!