Era uma vez um gênio

O que se deve fazer com desejos despertos?

Por Amanda Lana

An emanation of an absence. I feared he would leave, and so I wrote him down. And I filled this journal, bulging with facts. But the more realism I tried to insert, the more I began to doubt, and, uh,
it all began to feel silly.”

Nos primeiros momentos do filme encontramos Alithea (Tilda Swinton) em seu avião, a caminho da Turquia. Ela se apresenta como uma narratologista e introduz a história que virá como uma história real sob um verniz de conto de fadas. As coisas normais do nosso cotidiano – avião, celular – são descritas de uma forma mística e os acontecimentos fantásticos são quase trivializados. Miller e Swinton estabelecem o coração do filme aí: o potencial mágico que histórias tem de impactar o real, ou como o percebemos. Se é que há uma diferença. A escolha das palavras e, no caso do cinema, da encenação como um todo, molda a percepção do conteúdo. A forma é o feitiço.

Em Istambul, Alithea tem visões de criaturas sobrenaturais, mas as trata com certa apatia, se dizendo apenas emboscada pela própria imaginação. É algo irracional, que acontece ocasionalmente. Passeando pela cidade, ela compra uma garrafa danificada em uma lojinha, certa de que há uma boa história por trás do objeto. Evidentemente, naquela garrafa há um gênio (Idris Elba), que vai realizar três desejos, a clássica história, e os dois passam a conversar. A mise en scène de Miller transmite um equilíbrio no contraste entre o épico e o mundano, e essa dinâmica cria, no mundo real, pequenos momentos absurdos como Alithea usando uma escova de dentes elétrica para limpar a garrafa do gênio ou buscando as palavras para explicar a imagem de Albert Einstein na televisão.

Alithea fala sobre seu passado, um amigo imaginário, o antigo marido, a solidão que permanece. Os relatos são esparsos, filmados como memórias íntimas em sépia e distorção. Já os contos do gênio remontam a épicos milenares, com um quê de Barão Munchausen em alguns momentos. Miller pesa a mão nas cores, efeitos e detalhes, sem medo de exageros. No fim das contas, ambos falam sobre seus ciclos de isolamento e sobre o peso das histórias. A comunhão dessas solidões faz o mundo inteiro se abrir.

As palavras e imagens se transmutam em sentimentos que são tão reais quanto seriam se estivéssemos vivendo em primeira mão os momentos narrados. Dentro de um quarto de hotel, trocando experiências, conjurando cenários, alguns fantásticos, outros corriqueiros, Alithea se apaixona pelo gênio. Por meio dessas histórias, em sua plenitude, na dialética forma-conteúdo, eles passam a se conhecer de uma forma quase que transcendental, e o sentimento presente nesses contos extravasa para a realidade dos personagens. O amor pode nascer de uma história. Ou de todas.

Ela deseja que ele a ame de volta, que ela seja um dos objetos de desejo que habitam os épicos do gênio, e eles passam a viver juntos na Inglaterra, até que a hiperestimulação do mundo moderno começa a envenená-lo. O próximo pedido então é que ele vá para onde precisa, onde quer que esse lugar seja. Não há maior ato de amor do que desejar com todo o seu coração que a outra pessoa esteja sempre exatamente onde ela quer estar, independente de você estar junto. Um amor que é livre para ir e vir, como e quando quiser. E se houver sorte, às vezes ele volta pra você, mesmo que só por um tempo. Cada segundo com essa pessoa é um tesouro e por mais que doa a ausência, a convicção de que essa é a forma de contribuir verdadeiramente para sua felicidade faz tudo valer a pena.