Que tristeza, Östlund
Por Rafaela Marques

Qual o interesse em insistir que o ser humano é mau, impreterivelmente? Esse tipo de asserção e ponto de vista, alegadamente objetivos e imparciais, e por isso mesmo irrefutáveis, serve ao que Paulo Freire denomina “ética menor”, aquela do mercado, dos países centrais, da dominação. É sintomática a opção que faz o realizador Ruben Östlund em The Square: A arte da discórdia (2017) de retratar a sociedade indo sempre em uma mesma direção. Um exemplo, logo no início do filme, é o momento em que Christian (Claes Bang) tem seu celular, carteira e abotoaduras roubados; na parte final, o mesmo personagem encontra-se em um shopping center, fazendo compras com as filhas. Em ambos os casos, vemos pessoas transitando em espaços públicos de uma maneira um tanto curiosa: todos se dirigem à mesma direção, como se não houvesse outro(s) caminho(s) possível(is). Mais sintomático ainda é o fato de que esse filme, bem como Triângulo da Tristeza (2022), tenham sido agraciados com a Palme d’Or em Cannes. Não é mistério para ninguém em que direção vai a sociedade, segundo a recente e já premiadíssima filmografia de Östlund: para o buraco. O diretor sueco seria, então, um niilista? Alguém que faz uma crítica profunda e interessante às estruturas sociais com o objetivo de chamar a atenção do público para que uma centelha revolucionária apareça? De forma nenhuma.
Segundo Paulo Freire, em Pedagogia da autonomia[1], o ser humano, por excelência inconcluído, está em constante mudança, “num permanente movimento de procura”. Ainda segundo ele, haveria uma “malvadez” do sistema neoliberal no qual todos estamos inseridos, cuja força dever-se-ia à existência e difusão de um discurso fatalista de alcance e efetividade assombrosos. O grande mote do neoliberalismo – e é aí que entra o filme que pretendo abordar neste texto – é o seguinte: “não tem jeito, o ser humano é assim mesmo”. A impressão que tenho quando ouço, leio, ou, mais especificamente, vejo filmes que reproduzem inteiramente esse discurso em forma de montagem bem-feita, personagens alegadamente bem idealizados, uma aura – fake, evidentemente, senão não seria “aura” – de denúncia progressista, é que os portadores dessas mensagens ainda estão presos no embate Hobbes/Rousseau, já há muito ultrapassado. Não se trata de compreender e/ou afirmar que o homem[2] é ou não bom por natureza, se a sociedade o corrompe ou não. Com a filosofia moral kantiana, o materialismo histórico e o utilitarismo, essa questão perdeu validade epistemológica, tornando-se simples verborragia com objetivos um tanto escusos.
Triângulo da Tristeza não é, como muitos parecem compreender, um apelo à tomada de consciência global com fins revolucionários. Não pode haver revolução sem esperança, não há mudança sem desejo, não há movimento sem direção – quando esta direção é a mesma para todo mundo, quando ela se apresenta como única possibilidade, é melhor desconfiar. Os filmes de Östlund, apesar de parecerem revolucionários, não passam de um apelo ao conformismo. São uma súplica velada, e por isso mesmo perigosa, a todas/os aquelas/es que intentam mudar ou propor alguma mudança, que parem, que aceitem, pacificamente, o fato de que “não tem jeito, o ser humano é assim mesmo”. Em cenas como a discussão entre Yaya (Charlbi Dean) e seu namorado Carl (Harris Dickinson) sobre dinheiro, que começa em um restaurante chique e termina em um quarto de hotel igualmente de alto padrão, essa alegada vontade de revolução mostra sua debilidade. Teoricamente, as questões levantadas por ele – modelo como Yaya, mas vítima da disparidade de salários existente entre os manequins masculinos e femininos –, longe de se colocarem como algo a pensar, como provocação aos espectadores ou mesmo à companheira de cena, reproduzem um discurso frágil amplamente difundido no filme: “we’re all equal” (somos todos iguais). É como se, na origem, todos fôssemos iguais, mas que isso se perdesse quando jogados em sociedade, cabendo aos indivíduos, em uma empreitada quase meritocrática, a incansável busca por essa igualdade agora ausente.

O que ocorre, porém, é que nem a sociedade é feita sem as pessoas, nem “somos todos iguais”. Quando Östlund transplanta pautas feministas para o discurso pela igualdade salarial proferido por Carl no início do filme, ele nos convida – com veemência – a perder de vista o fato de que aquela situação retratada é a exceção da exceção. No mundo real, mulheres que desempenham as mesmas funções que homens ganham salários menores. Não adianta pinçar um dos únicos exemplos no qual essa lógica se inverte e, assim, bradar o sofrimento daquele homem diante de uma situação constrangedora. Sofrimento este, vale dizer, contado e compreendido sempre a partir do ponto de vista de Carl, retratado como objetivo/imparcial. Só o que consigo ver na extensa discussão de relação que abre Triângulo da Tristeza é uma mesquinhez generalizada, tanto dos personagens quanto do realizador. O argumento “somos todos iguais” funciona, para Östlund, somente no registro da malvadez; para ele, todos somos igualmente maus: é esse o grande ponto cuja prova demanda duas horas e vinte e sete minutos de um cínico apelo que quer parecer um “pensar fora da caixa”.
A ética menor presente nos filmes de Östlund tem como principal objetivo “soterrar o sonho e a utopia”[3]. Quando nos deparamos com as situações vividas na ilha, terceira parte do filme, essa tentativa de soterramento se faz mais evidente. Ali estamos diante de uma sociedade aparentemente nova, autogerida, que se alicerçaria nas habilidades individuais de cada um de seus componentes. No entanto, com a ascensão corrupta de Abigail (Dolly De Leon) ao poder, comprando votos em troca de pedaços de polvo, vemos desmoronar essa potência de mudança. Pouco tempo depois, contudo, nos enchemos de esperança de novo: Abigail convida as mulheres do grupo para se juntarem a ela em seu refúgio, longe dos perigos da ilha selvagem; estaria nascendo uma sociedade mais justa, apesar desse começo questionável? Não, isso seria alimentar a utopia e não a enterrar, e já entendemos que o realizador sueco é um coveiro.
Östlund trabalha sobre um a priori cuja verdadeira face deve ser escondida e mascarada o tempo todo. A instalação de uma clivagem categórica entre natureza e cultura torna-se a melhor forma de fazê-lo. A cultura, mais elevada, completamente apartada da natureza, aponta sempre para o que há de pior na humanidade. É curioso notar, porém, que até mesmo a natureza é vista pelo cineasta como algo ameaçador e grotesco. Seja na cena – ridícula e gratuita – do jantar, em The Square, seja nas noites que os personagens de Triângulo da Tristeza passam na ilha, a natureza representa sempre uma ameaça. No caso de Triângulo, essa ameaça se mostra inócua, já que a jumenta não oferece perigo a ninguém, apesar da esquisitice dos sons que ela emite. O a priori “não tem jeito, o ser humano é assim mesmo” estende-se, dessa forma, para tudo o que é da ordem da natureza, transfigurando-se em “não tem jeito, o mundo é assim mesmo”. Quando vemos, já no final do filme, Abigail sendo filmada como um bicho antes de matar Yaya, essa metamorfose fica ainda mais evidente.


Dito isso, o que nos resta? Devemos acreditar no ser humano com todo nosso coração? Ver nas pessoas o que elas têm de melhor? Pensar sempre positivo para atrair tudo o que for igualmente positivo? Não. Há outras
maneiras de representar as mazelas e complexidades das pessoas que habitam esse mundo conosco. Não é preciso, necessariamente, retratá-las como seres chapados, unidimensionais, nos quais os únicos afetos que reinam são a ganância, a mesquinhez e a soberba. Podemos nos perguntar, novamente, sobre as intenções de Östlund ao retratar com desprezo tanto a sociedade dominante, central – seja na segunda parte do Triângulo, no navio, seja nas cenas que se passam dentro do ambiente do museu em The Square – quanto as sociedades paralelas – a ilha ou o prédio que frequenta Christian, o curador.
Meu palpite passa, novamente, pela premissa: “não tem jeito, o ser humano é assim mesmo”. Na medida em que Abigail, uma imigrante que realiza trabalhos que pessoas brancas vindas de países centrais não se dispõem a fazer, é retratada como uma tirana, todos os tiranos pregressos – em sua maioria brancos, europeus e homens – ganham uma espécie de justificativa. O interesse de estender a maldade a toda a gama de seres humanos possíveis e imagináveis é uma estratégia para diluir a perversidade do modo de funcionamento de um norte global colonialista e neoliberal. Quando Carl e Yaya discutem sobre seus salários, Yaya é vista como intransigente, aproveitadora, uma espécie de sanguessuga, sendo que, na realidade, quem suga a força de trabalho reprodutivo das mulheres, quer elas ganhem mais ou menos, são os homens e a sociedade capitalista. Östlund nos convida, então, a homogeneizar as condutas e as realidades a fim de melhorar um pouco a imagem do norte global, principalmente agora que discussões e teorias decoloniais têm ganhado força e visibilidade. Por esse motivo, também, a Palme d’Or lhe foi entregue: o realizador sueco, com sua revolução escatológica fake, presta um serviço de primeira qualidade a seus semelhantes dominadores (no masculino).
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 51ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015, p.16.
[2] Até hoje, infelizmente, fala-se muito pouco em “ser humano”, insiste-se, ainda que tacitamente, que o vocábulo homem seria mais apropriado para tratar de assuntos universais, por isso optamos por usá-lo aqui.
[3] Ibid., p.17.