Por Natália Marchiori e Luiz Fernando Coutinho

Noite. Prédios iluminados, a volta do trabalho para casa, o piso intertravado sob a luz amarela do poste. A câmera treme, anda, respira, volta-se para uma janela com violetas na sacada. “Cada um com uma vida, né… Como será a vida vivida?”. Como será a vida vivida? Corta. Outra janela, desta vez filmada de dentro para fora. Passado. Textura de vídeo, desfoques, objetos na frente da lente, crianças jogando futebol na grama. Brasília. Hoje? Ontem? Estátuas de cabeças masculinas, símbolos de poder. Zooms vertiginosos aproximam e distanciam, precipitam e retornam. A montagem faz conviver espaços e tempos diferentes, materializados em planos-sequência, imagens sobrepostas e quadros fugazes. Incansável exploração rítmica de imagens e sons, texturas e grãos, superfícies e fundos.
Exibido na 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Vermelho Bruto nos impressionou pela radicalidade de seu gesto cinematográfico. O filme reúne imagens do arquivo pessoal e filmagens produzidas entre 2016 e 2018 por quatro mulheres que engravidaram, durante a adolescência, no período de redemocratização do Brasil. Ele nos convida, ao longo de seus 205 minutos, a olhar para imagens trêmulas e insistentes, a ouvir frases cortantes e melancólicas, a confrontar uma máquina abstrata feita de manchas, vísceras, líquidos, fungos, decomposição, ruídos e violência inaudita. Jô, Alessa, Fabiana e Eunice compartilham imagens caseiras de seus cotidianos, elaboram (sobre) suas vidas e nos permitem vislumbrar o lado político das experiências domésticas. As vivências individuais tocam a esfera coletiva como “forças centrífugas errantes que se desdobram até à esfera do cosmo” (Deleuze). Novamente, “o pessoal é político”.
A montagem de Amanda Devulsky e Luísa Marques borra as fronteiras entre público e privado, figura e fundo, passado e presente. Constrói-se um continuum de histórias e memórias e institui-se um tempo circular que vai e volta, avança e recua. Mesmo as experiências pessoais dessas mulheres são entrecruzadas e tornadas quase permutáveis: durante o debate em Tiradentes, elas confessaram emocionadas não saber onde terminavam seus relatos e onde começavam as vidas das outras mães. As imagens deslizam, escorrem, assim como as vozes que perfuram e abrem esses arquivos. Vermelho Bruto é um filme de sobreposições fantasmagóricas, em que imagens se justapõem umas às outras e colocam em cheque nosso entendimento de essencial e não-essencial, desierarquizando sua relação.
Jô, Alessa, Fabiana e Eunice se propõem a tarefa de filmar o mundo: povoando o espaço fílmico com imagens do trabalho, do jantar, das ruas, das festas, dos desfiles militares, das crianças, esse labirinto de imagens serpentinas traça a imagem de seus rostos. Rostos, entretanto, que não se deixam capturar facilmente e que, mesmo quando enquadrados, não duram. Pois mais do que de rosto, é de corpo que trata o filme: organismo vivo, imagem-corpo (“Eu tô tremendo porque eu tô em movimento, tô filmando e tô andando”), materialidade do arquivo e também corporalidade do registro.
Para um filme em que a questão dos encontros é tão importante, julgamos haver a necessidade de um diálogo com a equipe e com as mães que o fizeram acontecer. Nessa segunda edição da revista, dividimos a pauta Vermelho Bruto em dois segmentos. No primeiro, transcrevemos a conversa com a equipe do filme. No segundo, propomos uma colagem com depoimentos de Jô, Eunice, Alessa e Fabiana.
Em um contato preliminar com a diretora, Amanda, ela nos contou sobre a pré-produção. Ao lado de Pedro B. Garcia, assistente de realização e produtor, ela deu início ao projeto, em 2016, colando cartazes em pontos de ônibus do Distrito Federal. Em letras brancas sobre um fundo azul, convidavam mães que engravidaram entre 1985 e 1995 e que guardaram registros imagéticos dessa época. Daí nasce a relação de colaboração com as quatro mulheres que responderam à convocatória. Nesse momento, demanda-se algo além dos seus arquivos: que produzam imagens de seu cotidiano a partir de uma câmera portátil disponibilizada pela equipe.
Em nossa segunda conversa, já com a presença de Pedro e Luísa, desdobramos esse primeiro diálogo. Abordamos não apenas o filme, mas temas que o circundam e atravessam. Conversamos sobre ética, militância, mercado cinematográfico, estética, montagem, construção de si, imagens caseiras, entre outros assuntos. Durante o encontro, percebemos que, mais do que munida de certezas, a equipe preservava algo da indefinição e das incertezas do filme – suas dimensões não resolvidas, em processo. O que estava previsto como uma entrevista logo se transformou em uma elaboração sobre a experiência de realização. Amanda, Pedro e Luísa compartilharam impasses e resoluções, dificuldades e alegrias do processo, num constante olhar para si.
As mães, por sua vez, falam orgulhosas do processo. Refletem sobre a ausência de seus rostos no filme, sobre o intervalo temporal que separa as imagens de arquivo das filmagens recentes, sobre a experiência de filmar a si mesma, sobre suas trajetórias pessoais e, claro, sobre o filme. Espectros da História, Jô, Alessa, Fabiana e Eunice sobrevivem e persistem. Não as víamos, mas elas estavam lá, filmando as violetas em nossa janela.