Por Leodoro Camilo-Fernandes

Este pequeno texto pode ser um elogio a Tre piani (das melhores coisas que o cinema de Moretti nos trouxe neste século: a inevitabilidade, a contingência, a irracionalidade das vidas de uma grande cidade; o que resta a quem tem a sorte e o azar de permanecer vivo?; e sobretudo: a justeza e a soberania das emoções – quando tudo caminha em direção à padronização dos tempos, ou quando o tempo nos encaminhar para a padronização das sensações, são as emoções que nos vão salvar: as emoções nos vão aterrar – na falta de grama ou barro pra pisar nos prédios onde moramos e trabalhamos, as emoções hão de nos puxar pra terra daquilo que nos constitui, de tudo o que não podemos deixar para trás) ou pode ser uma tentativa de entender o que Margherita Buy fez comigo durante as duas horas desse filme: desde a primeira cena – quando aparece no meio da noite correndo para ajudar seu filho, acordada na madrugada, enrolada num cobertor – ela me fez chorar. Chorei em qualquer aparição sua na tela: quando a porta da ambulância se fecha; quando caminha abraçada com o filho, seus olhos estão inquietos: o marido quer o filho preso, ela quer o filho perto. O melodrama italiano, a mãe e o filho. Se em Mia madre Margherita era filha, aqui ela é mãe. Ainda não consigo entender o que Margherita Buy fez comigo nesses cento e vinte minutos do filme. Talvez seja algo em seu abraço, como ela se levanta de súbito para ter o filho nos braços sabendo que sua prisão é inevitável. E a justeza de todos seus gestos: lança-se ao alto para ter o filho nos braços, lança-se ao chão para ajudar o marido que apanhou do filho. As outras sequências estavam ali no filme para me acalmar o espírito, para que meus olhos pudessem se recuperar até a próxima aparição de Margherita: era só a câmera pousar em qualquer parte do seu corpo para que eu começasse a chorar. Quando suas mãos encaixotam o apartamento em que vivera toda uma vida com o marido, o plano começa em suas mãos, eu explodi em lágrimas – o plano segue até seu rosto: ela pega o telefone a fim de deixar uma mensagem para o marido morto na secretária eletrônica. No meio do filme, seu rosto em primeiro plano busca o filho na prisão: tem cansaço ali, tem alívio, tem a força de quem não tem outra alternativa senão permanecer. No fim, também seu rosto em primeiro plano, ela vê o filho carregando seu neto, o sorriso de quem sente a reconciliação – e neste plano tem tudo o que faz o cinema: vento e um rosto de mulher, ou o vento num rosto de mulher. E que o cinema também seja as mãos, os braços, a boca e os olhos de Margherita Buy.