Tudo começou com um desejo. A vontade de produzir uma revista de cinema.O passo seguinte foi telefonar para os redatores. Seduzi-los a embarcar na aventura. Nosso principal critério era a necessidade de tê-los por perto. Nove meses depois do primeiro flerte e após uma gestação complicada, sai o primeiro número da revista Madonna.
O trabalho é ambicioso. Queremos verificar o quadro clínico do cinema (ele está realmente morto?) e se o senso crítico evapora quando se tenta falar sério sobre filmes que saem em streamings ou em festivais pequenos. Descobrimos muito tarde que a superexigência míope e anacrônica, que espera que o cinema continue dando os resultados que dava há décadas atrás, ignorando que as condições de produção mudaram totalmente, cria um estado de amargura permanente. Foi preciso então entender que o cinema muda e aceitar o desafio de encará-lo pelo que ele é, não pelo que gostaríamos que ele fosse.
Algumas ferramentas são importantes. A primeira é a desconfiança da separação entre forma e conteúdo. No final de A Filha Perdida, por exemplo, todas as escolhas dramáticas e temáticas têm consequências estéticas. Quando Maggie Gyllenhaal inverte a ordem da cena de Elena Ferrante e faz com que a mãe ligue para as filhas e não o contrário, como previsto no livro, é a forma da cena que determina o significado dessa inversão. Roteiro e atuações (objetos privilegiados pela “cinefilia popular”) também definem a estética do filme, apesar de escaparem do controle demiúrgico do metteur-en-scène. A essa distância, o refrão da “cinefilia dita avançada” (Mise En Scène Über Alles) nos parece um tapa-sexo, uma daquelas verdades absolutas que pretendem suportar o insuportável, fazer passar como natural o que deveria ser questionado sempre. O formalismo alucinado que seguíamos no passado se revelou, então, como forma de manutenção, muito mal maquiada, de um poder violento. Quando falamos da ideologia no cinema clássico hollywoodiano, não pretendemos destruí-lo. Como um bom amante, tomamo-lo pelo que ele é, o abraçamos por inteiro.