Falar no escuro

Por Raffaella Rosset

Imagens do filme Le Plaisir, de Max Ophüls, 1952

Há um lugar onde certos filmes simplesmente sabem que serão encontrados; este lugar é a sala de cinema. Para outros filmes, a sala de cinema é um grande talvez e, quem sabe, um nunca. A história da produção de filmes é também a da exibição. Por “filmes” eu quero dizer também pessoas e formas de trabalho. As pessoas que fazem e a maneira como fazem os filmes. Elementos que, por fim, se tornam o filme.

Um dos primeiros filmes que assisti em sala de cinema, depois de quase dois anos durante a pandemia em que vi filmes somente em casa, foi 007 – Sem Tempo para Morrer. O tamanho da imagem e o volume do som da sala foram tão tremendamente chocantes em comparação àqueles dos filmes que vi no confinamento, que quase saí da sessão. Um sentimento de “isto é demais”, “isto não dá espaço para mais nada acontecer aqui nesta sala” me pareceu angustiante, e eu senti falta, talvez, de algo que eu tinha quando via filmes em casa: um certo controle.

O afastamento e a volta para a sala – falo aqui de uma sala bastante convencional de cinema – tornaram novidade a suntuosidade de ver um filme num lugar feito apenas para aquilo. Um lugar onde o filme é o que organiza todos os eventos. Ver um filme em sala de cinema é estar diante de algo incontrolável. O filme acontece em seu tempo – não há possibilidade de pausá-lo – em seu volume – os espectadores não o escolhem – e em sua dimensão – a da tela do lugar onde vamos vê-lo, etc.

Filmes como 007 são produzidos com consciência de que estarão nestes lugares; há alguma previsão de como o espectador entrará em contato com o filme. Em Le Plaisir, realizado em 1952 por Max Ophüls, o primeiro momento do filme é justamente uma alusão a essa consciência. O narrador do filme diz: “Estou encantado em falar com vocês no escuro… / Como se estivesse sentado junto a vocês”, e encerra com a doçura: “E talvez eu esteja”. É pressuposta ali a sala de cinema, ou no mínimo uma ideia de que o filme iria bem acompanhado de uma certa forma habitual de ver filmes – as pessoas sentadas no escuro, atenção total ao filme.

Numa recente viagem de carro, passei com amigas por uma cidade bastante deserta: pouca gente na rua, poucos estabelecimentos, muito mato e estrada. Do nada: um cinema. Alguém no carro então diz: “Se a gente entrar nesse cinema, nem vai parecer que estamos nessa cidade. Poderíamos estar em qualquer lugar.” A sala de cinema é um dado. É um lugar conhecido que se mantém mais ou menos parecido ao redor do mundo. 007 e Le Plaisir contam com esta ideia.

No entanto, há filmes que não contam com este espaço – porque não podem e, por vezes, porque não querem. Um dos maiores filmes que vi nos últimos anos nunca conseguiu ser exibido em sala de cinema, depois de inúmeras tentativas – envio para diversos festivais e curadores. O filme se chama Nos Momentos Bons. É um curta-metragem de um jovem português que vem fazendo filmes de maneira independente há meados de dois anos; chama-se Pedro Gavina Maia. Só vi este filme porque Pedro é amigo de um amigo também cineasta.

007 é um filme desenhado desde o princípio com a segurança de exibição em sala: todas as cenas, escolha de atores, as cores, a espacialidade do som contam com um espaço de exibição específico. Nos Momentos Bons é um filme feito em queda livre; feito sem saber onde será encontrado ou como será encontrado.

Nesse filme, vemos Pedro e um colega andando dentro de uma caverna escura com um gerador de luz ligado. Conforme andam pelo escuro levando a fonte de luz consigo, esse espaço vai sendo iluminado, vai se apresentando e se fazendo existir. O cineasta ali presente vai criando seu filme conforme caminha. Caminhada esta cheia de riscos: não se sabe o que aparecerá no caminho, uma vez que, andando na escuridão, o caminho é pedregoso e irregular, a câmera está rodando sem cortes.

Esta imagem do cineasta criando o filme conforme anda, sem saber onde vai parar, é precisamente o que acontece com o próprio Pedro quando busca mostrar seu filme. Ophüls fala no escuro de maneira confortável com seu espectador. Está num escuro de mistérios conhecidos, está onde sabe que estaria. Nos Momentos Bons anda no breu.

Pedro me contou que criou uma exibição para seu próprio filme: convidou filmes de outros realizadores para passar junto com o dele, chamou pessoas para tocarem música antes e depois da projeção e fez uma sessão. Fez, portanto, o filme, curou e programou uma sessão e foi seu próprio exibidor. Tomou todas as etapas de existência do filme para si.

Filmes que têm que inventar seu percurso podem pensar em inventar suas salas de cinema. “Estou encantado por falar com vocês…” Onde? Aprofundar a experiência da incerteza projetando o filme de forma também incerta. Às vezes, não é do desejo, mas da falta de saída.

A sala de cinema enquanto o que permanece depois que a sessão acaba, o esqueleto do cinema. Lugar que, desde o momento em que entramos, já sabemos como deveríamos agir, de certa estabilidade. No entanto, mesmo os filmes que parecem desfrutar com alguma segurança deste espaço, no geral, o fazem durante o período de seu lançamento: quão simples é encontrar Le Plaisir e 007 nos cinemas hoje?

Em especial para aquele cineasta que não pode contar com esta constância em nenhum momento, projetar seus filmes em lugares instáveis pode ser a grande aventura.

Vou, por isso, aproveitar a abertura deste espaço, esta nova revista, para propor uma exibição do filme do Pedro Maia aqui mesmo. Abaixo, o programa.

Nos Momentos Bons
Pedro Maia, 2020, 24 minutos

Boa sessão! Estou encantada por falar com vocês por aqui.