Por Rafaela Marques

Em Um teto todo seu (1929), Virginia Woolf defende uma posição interessante e um tanto vanguardista: mulher, caso você queira escrever – trabalhar em geral – tenha um teto todo seu, busque sua independência financeira. Por mais que o argumento tenha envelhecido mal e muitas críticas possam ser feitas a ele, é interessante pensar, a partir de algumas experiências cinematográficas não muito distantes temporalmente do ensaio em questão, como, mesmo tendo um teto todo seu, a liberdade das mulheres ainda é uma utopia – no pior sentido do termo. Para tanto, trabalharemos com três filmes: À Meia Luz (Gaslight, George Cukor, 1944); Uma Vida Por Um Fio (Anatole Litvak, 1948) e Revelação (Robert Zemeckis, 2000). Colocado de outra forma, podemos nos perguntar de que maneira essa possibilidade de libertação aludida pela autora – ainda que branca, burguesa, europeia – é subvertida e reapropriada pelo sistema patriarcal, se não interditando, pelo menos dificultando consideravelmente qualquer tentativa de autonomia efetiva das mulheres.
A primeira imagem que temos de Ingrid Bergman em À Meia Luz é de um abandono de sua casa forçado pelas circunstâncias cujos detalhes sombrios só descobriremos depois. Atrás da protagonista, as luzes se apagam e a porta da casa na 9 Thorton Square se fecha. Naquele instante sabemos apenas que sua tia, Alice Alquist – única família que ela já teve –, foi brutalmente assassinada e que Paula (Bergman) vai para a Itália com a missão de “esquecer tudo o que acontecera ali”, tentar levar uma vida feliz e talvez seguir os passos brilhantes de sua tia, grande cantora de ópera. Esses primeiros momentos introduzem o que depois será, sob os nossos olhos, uma completa inversão do sonho de liberdade de Woolf. Paula, em dado momento, afirma de forma categórica: “sinto pavor desta casa!”. Podemos completar: os fantasmas que a assombram e aterrorizam, causando tanto pavor, se manifestam, principalmente, no teto de seu quarto que dá para um sótão lacrado, cujo acesso é impedido desde seu retorno para essa casa cheia de memórias.
Esse retorno aparentemente difícil de explicar é friamente arquitetado pelo marido de Paula, Gregory Anton (Charles Boyer). Pianista medíocre, orador contundente, Gregory se vale de todo tipo de artimanha para primeiro casar-se com nossa protagonista, apenas duas semanas após o início da relação, e depois convencê-la a voltar à “casa em frente a uma praça em Londres” com a qual ele sonhou por toda sua vida. “Por acaso”, trata-se da casa da qual Paula é proprietária, herdada de sua tia, Alice Alquist, estrangulada anos antes ali dentro, cujo corpo foi descoberto justamente por ela ainda muito jovem.
Nossa heroína foi obrigada a abandonar seu antigo lar após esse crime brutal, cometido contra a pessoa mais importante de sua vida. Os motivos do crime, porém, permanecem desconhecidos tanto por ela quanto pela polícia. Paula também é forçada, já adulta, a abandonar sua iniciante carreira de cantora para casar-se com Gregory. No caso do primeiro abandono, o horror funciona como o agente que a coage; no segundo, esse papel é desempenhado pelo amor. Gregory, com sua eloquência, assume, em um terceiro momento, o lugar da síntese nesse processo dialético. Ele convence sua bela esposa que voltar para aquela casa é uma boa ideia, e inclusive consegue fazê-la se animar com essa possibilidade até então aterrorizante. Já sabemos que muito rápido esse ânimo se desfaz, mais precisamente quando ambos, sob o olhar do imponente retrato de Alice pendurado na parede, folheiam seu antigo livro de partituras e encontram uma carta perturbadora assinada por um certo Sergis Bauer. Gregory se altera, afirma que Paula deve esquecer a tia para que os dois sejam felizes. A partir daquele momento, o horror volta a se apossar dela e de sua relação com a casa.
Mote do female gothic, a questão “o marido é mesmo quem ele parece ser?” (Mary Ann Doane) se impõe. A partir dessa investigação, poderemos compreender como e por que ter um teto todo seu não é o suficiente para que a mulher esteja a salvo. No caso de À Meia Luz, ter um teto todo seu catalisou uma relação doentia que representou a ruína de Paula nos vários meses em que ela esteve prisioneira dos abusos e gaslitghtings de seu marido. Isso tudo dentro de sua casa, do ambiente que deveria ser seu porto seguro, agora usurpado por intenções mesquinhas e violentas do homem com quem, ingenuamente, Paula escolheu se casar.
Ainda pensando se “o marido é mesmo quem parece ser”, nem o Gregory de Boyer é apenas um pianista medíocre, nem o Norman Spencer de Harrison Ford em Revelação é apenas um geneticista famoso e renomado – esse que, curiosamente, em sua primeira aparição, parafraseia outro célebre Norman ao se referir a um vizinho: “He wouldn’t hurt a fly”. Em Revelação, vemos uma farofa de gêneros cinematográficos, que tenta, justamente, responder à questão sobre o marido – aqui, diferentemente de À Meia Luz, a enquete será levada a cabo pela esposa, pela mulher protagonista, sem a ajuda de detetives ou quaisquer outras figuras masculinas.
A casa de Norman e Claire Spencer (Michele Pfeiffer) é também algo pavoroso, seja pela reforma interminável que eles tiveram que fazer para mudar-se, seja pelas memórias escondidas ali que se materializam muitas vezes em forma de assombrações. Só que dessa vez elas são bem transcendentes – ao contrário dos fantasmas do sótão de Paula Alquist, que nada mais eram do que a ação de seu marido, ou seja, imanentes por inteiro. Descobrimos agora que Gregory, então, além de pianista medíocre, é também um fantasma, mas de um tipo todo particular: ele possui uma materialidade ignorada por sua esposa, alvo do assombramento. Ou seja, Gregory só é um fantasma para aquela que está sendo assombrada e, por algum tempo, para o espectador; ele nunca pretendeu assombrar sua esposa, pois suas motivações, como veremos, são bem mais vis e pequenas.

Stanwyck em Uma Vida Por Um FIo.
Se Gregory é um fantasma imanente povoando aquela casa na 9 Thorton Square, seria Harrison Ford o fantasma que aparece para Claire com uma insistência ameaçadora? Dificilmente. Por inúmeras vezes nos deparamos, através da mediação dos olhos da Sra. Spencer, com uma figura moribunda que aparece principalmente em reflexos – espelhos ou espelhos d’água. Musicista brilhante, mãe de uma garotinha, viúva: essa era Claire antes de se casar com Norman apenas três meses após conhecê-lo. O casamento relâmpago, o amor, obrigou-a, como já havia feito com Paula, a abandonar uma carreira brilhante e a se assentar onde quer que o marido estivesse – Boston por alguns anos e, mais recentemente, a casa herdada do sogro em Vermont. O que sobra para Pfeiffer, nesse caso, é sua curiosidade e vontade de compreender de onde vêm aquelas assombrações e, mais profundamente, se ela está ou não louca, já que “assombrações não existem”.
É interessante perceber o quanto esse movimento de busca, compreensão, investigação, existente também em Uma Vida Por Um Fio, molda a maneira como os filmes se desenrolam. Barbara Stanwyck, após ouvir uma ligação cruzada com um conteúdo macabro, se vê jogada em um vórtice intenso de rememorações (flashbacks), ligações telefônicas e tentativas de associações intelectuais, que trazem ao filme um movimento interessantíssimo apesar da imobilidade auto infligida da personagem principal. Sua doença, seu corpo que consegue só com muita dificuldade alcançar um pedaço de papel a alguns metros de distância, funcionam ali como os fantasmas nos outros dois filmes. O fato de ser uma inválida, neste caso, representa a ruína última da personagem que, dentre as três, é a única que não é capaz de se salvar dos fantasmas. Ainda assim, é ela que vemos na tela, é a atuação brilhante de Stanwyck, que, interpretando uma enferma, nos prende por noventa minutos de um female gothic canônico e desconcertante.
Nos três filmes, malgrado as interferências e violências masculinas, são as mulheres as responsáveis pela ação, pelo olhar e pela investigação. É a partir do ponto de vista delas que compreendemos os limites de suas supostas liberdades. Stanwyck e Ingrid Bergman escolhem seus maridos por amor, são mulheres de posses, não dependem de ninguém, não precisam se submeter a homem nenhum, possuem um teto todo delas. Pfeiffer, mesmo sendo mãe solo e viúva – uma mulher rodada, no vocabulário mais chulo e infelizmente ainda corriqueiro – consegue fisgar um ótimo partido, manter sua autonomia financeira, e ter, ela também, um teto para chamar de seu.

Não obstante, toda essa suposta autonomia é colocada em questão e constantemente em perigo pelas inúmeras assombrações com as quais as protagonistas são obrigadas a lidar. O fantasma imanente de Gregory, ou Sergis Bauer, assombra sua esposa de forma consciente – todos os episódios de gaslighting, os flertes com a empregada. Ademais, ele a assombra também, talvez, inconscientemente: é possível que Bauer não saiba sobre os efeitos causados sob o teto da casa por suas idas ao sótão – o gás oscilante, os barulhos. Independente disso, consciente ou não, a assombração imanente de Sergis surte o efeito desejado: Paula quase acredita em uma loucura que, paradoxalmente, vem de fora, lhe é atribuída pelo marido, e toma corpo no pavor acarretado a ela pela casa.
No entanto, essas ignóbeis tentativas de anulamento de sua subjetividade não se impõem de forma categórica: a personagem resiste apesar das dificuldades. Em uma bela cena, nos deparamos com a recusa de Paula em agradar seu marido Sergis/Gregory, um apaixonado por jóias, como ele mesmo nos conta no início do filme. No contexto de uma recepção organizada por uma antiga amiga de Alice Alquist e à qual Paula insiste bravamente em comparecer, vemos um plano aberto onde estão quatro mulheres desconhecidas e a protagonista no meio. Todas, à exceção de Bergman, usam colares exuberantes, cheios de pedras preciosas (motivo do assassinato da tia de Paula anos antes). Essa recusa da personagem, que pode passar despercebida ao espectador desatento, representa, a nosso ver, um ponto capital. Mesmo com todos os esforços do marido, mesmo com a usurpação de seu lar, de sua sanidade, a tentativa de alienação de seu próprio corpo, ela ainda consegue resistir e usar, naquela ocasião, apenas uma gargantilha simples com um pingente de estrela, talvez remetendo às incansáveis tentativas que ela empreende para manter sua razão, ou, em um vocabulário moderno, suas luzes.
A aliança, no mínimo curiosa, entre Pfeiffer e a aparição, o fantasma de Madison – jovem brilhante que se interessou mortalmente pelo professor mais velho e soberbo, e cujo corpo foi desovado por Norman em um lago (à la Psicose) – representa, de maneira ambígua, a prisão de Claire e sua salvação naquela realidade mórbida. Não fosse pelas ajudas transcendentes, a protagonista de Revelação teria sucumbido aos ímpetos assassinos de seu marido que, agora sabemos, não era apenas um geneticista famoso, mas um criminoso calculista e medonho.
Há algo positivo no teto de Pfeiffer, justamente o pedido de ajuda de Madison que ela conseguiu atender e, principalmente, a restituição de uma dignidade àquele corpo morto já decomposto que nos aparece no final do filme como belo e reluzente após a investigação feita por Claire.
Possível referência (ou não) para Tarantino e sua Beatrix Kiddo, a luta de Pfeiffer pela vida enquanto está com o corpo imobilizado pelo halotano nos indica, novamente, uma fissura no sistema opressor, bem como todo o suporte que lhe é dado pelo fantasma de Madison. Apesar de ter tentado encerrar sua esposa em uma casa mal-assombrada e, em um segundo momento, no seu corpo ainda consciente, mas sem capacidade de se mover, Norman Spencer é vencido pela união insólita entre Claire e sua amante assassinada.

Talvez seja esse suporte o que falta a Stanwyck em sua odisseia de desilusões. Mesmo com a ajuda indireta de Sally – antiga colega de quarto e ex-namorada de seu marido – Stanwyck não é capaz de se libertar da prisão de sua doença. Cabe relembrar que, quando se vê realmente ameaçada, a protagonista tenta falar com seu pai, o cúmplice de seu marido ou ainda este último, homens que, como sempre, estão imersos em seus próprios problemas e não são capazes de ajudá-la. Faltou à protagonista uma rede de apoio, alguém que a levasse a sério, o que dificilmente encontramos em homens. Stanwyck perdeu a mãe para uma doença cardíaca, daí sua neurose e sua crença que seu destino seria o mesmo. Finalmente o que vemos no filme de 1948 é o esforço imenso de uma mulher só que, por mais genial e brilhante que seja, não consegue se salvar talvez por não ter ninguém a quem recorrer.