Paralelas partidas (Dor e Glória e Mães Paralelas)

Por Felipe Cruz

É terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito.

Matilde Campilho

24 de junho de 2019.

Aniversário da mamãe. Não estou com ela porque meses atrás eu disse que não poderia ir até Macapá dessa vez por ter uma passagem marcada para São Paulo, para um evento que aconteceria por ocasião do lançamento de um livro meu. Era mentira. Quer dizer, era mentira naquele dia, em que eu disse isso para ela. Nada disso estava planejado para acontecer – eu inventei na hora. Depois que desliguei, fiz o que precisava para que o que eu havia dito deixasse de ser mentira, assim, com o passar do tempo, eu lembraria das coisas em outra ordem e então eu nunca teria mentido para ela: o que esse texto vai dificultar bastante que aconteça.

Desde que eu falei para minha mãe que eu sou gay, todas as palavras entre nós foram invadidas por uma distância que as refizeram estrangeiras. E é tão longa essa distância percorrida pelas palavras entre os nossos corações que, quando elas enfim chegam do outro lado, o idioma já se arruinou, incompreensível.

Liguei para mamãe logo pela manhã, desejando feliz aniversário. Perguntei do mingau de São João, da cachorra, desejei alegria e não mencionei meu pai. Agora que a distância era mais palpável, eu me sentia um pouco menos triste e dura a distância geográfica. Desliguei, me vesti. Uma amiga me esperava no centro de São Paulo porque iríamos ao cinema.

15 de janeiro de 2022.

É um dia comum, isto é, não tem qualquer relação com o dia 28 de abril, dia peculiar, por sua vez, porque foi quando meu pai morreu. Por isso não consigo entender por essa perspectiva o luto que tomou conta da casa enquanto o dia terminava. Minha mãe me liga para avisar que doou a cama em que dormiu com o meu pai por mais de 30 anos e para dizer que vai tentar se livrar de mais objetos, deixar a casa apenas com o necessário. Eu entendo que não há muito para ser dito diante disso, que a morte de um marido é bem diferente da morte de um pai, que falar com um filho é muito diferente de falar com uma mãe e que o tempo para nós dois e os modos como ele vai continuar matando o meu pai é inteiramente distinto. E suspeito a intensidade do luto como um fenômeno que pouco ou nada tem a ver com a cama em que nunca mais vou deitar como fiz por toda a minha vida.

Um alerta me avisa, farol no mar, que aquele sinal na imensidão da falta aponta um outro continente do qual me aproximo, mas que não consigo enxergar ainda. Que a história do país avança – fascismo moendo gente como meu pai – e que a cama foi apenas mais uma baixa dessa guerra de séculos pela terra, pelo dinheiro, pela narrativa.

A casa já toda enlutada e o corpo do meu pai, a imagem que não existe, que ninguém viu, o cadáver enterrado quase em segredo, lacrado dentro de um caixão esterilizado, coberto de terra com muitas eras geológicas misturadas, desapareceu numa noite chuvosa como essa, com ninguém presente além dos estranhos que enterravam gente e mais gente naqueles meses de 2020. O objeto principal de memória desaparecido. Pulverizado, penetrou as minhas vias respiratórias, e as de minha mãe, sendo cuspido por nós sempre que pronunciamos tantas palavras que não o mencionam. Não há muito para ser dito e intuo que o quase nada por se dizer possa estar num filme que baixei há pouco tempo e que agora me preparo para assistir.

24 de junho de 2019.

Encontrei minha amiga, entramos no cinema, há anos não vejo um filme do Almodóvar assim. Quando eu penso em representatividade, o que me ocorre é que há ainda muitas imagens intrinsecamente ligadas a mim que eu nunca vi fora da minha cabeça e isto me parece provocar um efeito, uma ignorância sobre si. Porque o mundo é também o que vemos dele com nossos próprios olhos e não simplesmente aquilo que imaginamos e desejamos, eu acho.

Deste filme de Almodóvar eu não sei nada, a não ser que se chama Dor e Glória e que conta com Antonio Banderas e Penélope Cruz no elenco. Rostos familiares, enraizados numa juventude que, entre outros subterfúgios, tentou se compreender e, portanto, se identificar, como cinéfila. O filme começa e vou assistir à história de Salvador, um diretor gay que há algum tempo não trabalha e cuja infância num vilarejo espanhol acompanharei em paralelo. Imagino se tratar de uma dessas histórias em que se procura a criança no adulto, e vice-versa: neste caso, um menino tímido, excelente aluno e filho obediente, descobrindo o primeiro amor por um rapaz que irá trabalhar na casa da sua mãe. O reconhecerei no homem reticente interpretado por Banderas, errático, vagamente tímido, de quem cobram uma nova obra de arte enquanto aquela que é considerada sua obra-prima é celebrada em uma cinemateca.

Cobram que alguma coisa nasça das suas entranhas novamente, o querem de novo voraz e ele Parece inteiro letargia e desencanto. Um personagem perfeito para Banderas. Uma dramaturgia menor se desenvolverá dentro do filme – ficção inventada pelas personagens – e também nela procurarei o menino calado do vilarejo espanhol, cujo crescimento os olhos acesos de Cruz observam de perto, sempre parecendo marejados, à beira de.

O quê? O que sua mãe adivinha que o futuro lhe reserva, que terrível monstro ela presume caminhar pelas veias fleumáticas do seu filho?

15 de janeiro de 2022.

Madres Paralelas, sobre este filme eu sabia um pouco mais e aguardo reencontrar os olhos gigantes de Penélope Cruz. Para onde a atriz vai voltar seu olhar? É ainda com a voz da minha mãe ao telefone que eu começo a assistir ao filme sobre duas mulheres que se tornam mães no mesmo dia, o que, vou entendendo, equivale a acompanhar duas mulheres para quem o mundo renascerá um estranho familiar no mesmo instante.

Algo se passará entre elas, em paralelo, o que significa simultaneamente, o que, por sua vez, significa de maneira cruzada. Imagino uma troca de bebês que não demora muito a se confirmar, mas a camada mais subterrânea do filme está, desde a apresentação de Janis, protagonista de Cruz, estranhamente à vista: uma mulher a reivindicar um senso de história, ou talvez um reconhecimento a respeito do apagamento da história, mais até do que da história em si; me ocorre agora. E o caminho de Almodóvar é o do melodrama, da trama com intensas curvas, muito fechadas, em que as personagens se chocam com as margens de uma narrativa. É nesta margem que estão enterrados os cadáveres que Janis insiste em exumar: território sem governo, onde o Estado despeja desaparecidos por meio dos quais poder-se-ia certificar-se que nossa vida é também e sempre um amontoado de sangue e berros, que, à nossa revelia, o que chamamos história é também e sempre a vida dos desaparecidos que Janis quer lembrados por fora porque já os lembra demais por dentro – e é justo compartilhar essa recordação com o país assassino em que ainda caminha.

As mães se recusam a esquecer, não só porque entendem no corpo que os sumidos dos olhos da história foram também gestados por mulheres como elas, que não esquecem, como também por ver seu corpo diariamente golpeado por novas camadas de histórias em crescimento, alimentadas por elas, ensinadas a falar e a andar por elas. As mães, ainda que quisessem e se esforçassem para isso, não conseguem esquecer.

24 de junho de 2019.

O menino tímido no vilarejo espanhol vê o rapaz por quem está apaixonado nu. Ele vai buscar uma toalha e, ao retornar, encontra o rapaz encharcado e brilhante, na sala de casa. Desmaia de febre. É esta uma cena que eu nunca tinha visto no cinema. Não a do homem nu, mas a do menino vendo seu primeiro homem nu. Nasce o homem adulto interpretado por Banderas? Será esta a imagem ainda não filmada, a imagem sobretudo de um olhar, a força motriz de seu próximo filme?

De volta ao presente, Salvador conversa com sua mãe, ouve uma história do vilarejo em que cresceu e de onde, há muito, saiu. Percebendo o interesse crescente de Salvador na história que narra, a senhora já idosa se detém e anuncia sua recusa em continuar a narrativa. Conhece aquele olhar, sabe que o filho já está planejando recontar suas palavras em um filme.O que ela e as vizinhas detestam, afinal, é a vida, e o que a vida tem a fazer em um filme?

Entendo. O livro que eu escrevi contando nossa história, mamãe nunca leu.

15 de junho de 2022.

As mães se encaminham para onde estão os corpos. Antes, conversam com outras mulheres. A mais idosa lembra que seu pai levou consigo um chocalho que era dela, quando foi preso pela ditadura franquista. As coisas que levamos para o abismo, quem pode imaginar? Depois que os esqueletos ressurgem para o sol, Almodóvar filma suas atrizes dentro das covas, são seus corpos também que foram reencontrados, ou melhor, são os lugares de onde aqueles corpos saíram que foram reencontrados. E sim, o chocalho ainda estava lá.

Certa vez, mamãe voltou de viagem e encontrou, sobre a cama em que meu pai estava dormindo sozinho durante o tempo em que ela ficou fora, o livro que escrevi, contando nossa história. Estava aberto. Ele não falava comigo há mais de um ano. As coisas que levamos para o abismo, quem pode imaginar?