Renate

Por Gabriel Linhares Falcão

Alguns filmes nos põem de frente com o cinema em sua forma mais elementar, nos apresentando a composição como um artesanato: sucedendo imagens, adicionando sons, retirando a imagem, aproveitando o silêncio… nos aproximando das mãos (uma, duas ou quantas foram necessárias) que parecem tatear o filme como um material vertical decorrendo de cima para baixo, revelando sua composição na luz da projeção que o atravessa. Ressaltadas as qualidades planas e materiais do quadro, a profundidade se revela mais do que nunca como um dado virtual, menos como o estabelecimento de um senso espaço pela concretude da realidade que a estipulação de uma tridimensionalidade por fragmentos e intervalos que se erguem verticalmente de um vazio inicial, se aproximando assim mais da música que das artes plásticas, abdicando a perspectiva renascentista mesmo que operando a partir da captura de imagens reais como princípio visual.

O cinema da alemã Ute Aurand vem nos relembrando quase anualmente da possibilidade artesanal. Adotando uma maneira muito livre e intuitiva de registro, seus filmes são devotos ao tempo presente, propondo um rompimento com o “olhar ao passado” comum dos filmes-diários e com o congelamento da figura pelo retrato, utilizando vias impressionistas do registro que permitem uma modelagem perpétua do documento. Seu último filme, Renate acompanha a cineasta e amiga Renate Sami durante uma visita de Aurand (diferentemente de outros filmes da diretora que mesclam registros de vários tempos distintos). Como quem coleta flores e monta um buquê, a cineasta acompanha a retratada por dias comuns e momentos calmos de sua vida: em um parque, em seu lar; os livros em sua estante, pinturas e gravuras dispostas nas paredes de sua moradia, a máquina de costura, pedaladas de bicicleta, seus óculos arredondados, o cabelo esbranquiçado preso, suas roupas de frio que indicam a real temperatura por trás do sol constante… Do trabalho no computador, à própria preparação de buquês, percebemos em cada fragmento como a luz repousa e incide na imagem. Sons são encontros não intencionais, uma leitura de Friederike Mayröcker e a reprodução no YouTube de So oder so ist das Lebene de Brigitte Horney, por exemplo, são apresentados por Renate à sua companhia e adicionados ao filme como um fragmento a modelar a concretude. Na maneira livre de filmar da cineasta, em que tudo se descobre no instante, a luz parece ser o norte desta modelação bastante espontânea. Até mesmo quando um som é integrado, este surge, como se fosse iluminado momentaneamente, e se dissipasse na modelação.  

Sua montagem rejeita qualquer hierarquização entre as imagens e sons, ideia que foi também tema em seu filme To Be Here (2013), garantindo uma horizontalidade de ponta a ponta. Como se pudéssemos adentrar Renate, e diversos de seus outros filmes, em qualquer instante da projeção, a porta parece estar sempre aberta ao espectador. Não há de fato nem início nem fim nesta jornada perceptiva, apenas a sucessão perpetuamente presente. Sua liberdade parece ser atraída por dois elementos irrecusáveis que sempre merecem a sua atenção, como uma sutil proposição de passagens inevitáveis em meio a viagem sem destino definido: a câmera-olho não nega a presença de flores e sorrisos, e na montagem, estes parecem surgir mais que qualquer outro detalhe rotineiro. Qual o segredo de Aurand que conduz os retratados à mais sincera espontaneidade? Os sorrisos, também de ponta a ponta, nos fazem questionar se aparecem por controle das passagens em meio a jornada, ou, o mais plausível, pelo magnetismo de quem conduz a câmera. Seus diários não se apresentam como olhares idealistas do cotidiano, a doçura está impregnada no traço pelo mais simples dom da atração. Seja na Alemanha, nos Estados Unidos (To Be Here), no Japão (Junge Kiefern, 2011) ou na Índia (India, 2005), olha-se direto para a câmera com o sorriso mais largo. Vemos o privilégio de um olhar que é sempre visitante, no sentido mais sincero do registro, que não objetiva o encontro estipulado como um turista, e sim observa sendo guiada pela atração, indo ao que chama atenção; garantindo, nesta fusão entre sentidos e câmera, o habitar.

Os efeitos manuais que adornam esta realidade são experimentos luminosos, que conduzem a um ritmo interno misterioso, liberto, mas ao mesmo tempo rumo a um equilíbrio. O senso de profundidade se faz menos pela realidade concreta e mais por uma justeza virtual. Combinando montagem na câmera e montagem na moviola, a musicalidade apresentada ruma a clareza, a limpeza e a obstinação com a luz, garantindo sua presença reveladora em toda imagem sem que ela sobreponha o objeto. A modelagem torna o mais cotidiano dos planos em tempo vivo. Diante de imagens e sons tão próximos ao olhar pela câmera 16mm, o movimento interno da composição apresenta uma justeza intrigante.

Godard entregou o contraponto em Ici et Ailleurs (1975): “não uma imagem justa, justo uma imagem”; fator instigante mais condizente com as artes visuais que com a música. “Justo uma imagem” carrega consigo a surpresa, ou da captura ou do encontro, de toda maneira, acompanhada de uma mínima espera, um estado a priori (que abrange do obstinado ao renunciante) a ser surpreendido. 

Um plano detalhe registra o olhar de Renate Sami frisando o fora de campo. Sem cortes, desce para suas mãos sobrepostas e relaxadas. Com uma delas, aponta para a mesma direção de seuolhar alertando algo que a imagem não registra. Rapidamente o foco é jogado para o fundo e a câmera se movimenta seguindo a indicação. Realiza uma breve pausa no movimento para observar um pequeno cachorro de pelo amarelado que saltita no sentido contrário. Assim que o animal sai do quadro, continua seu movimento e observa os tons de azul do lago com a vegetação ao redor. Algumas pessoas passam cortando a imagem e a seguir retorna ao plano inicial de Sami, agora rindo como se tivesse notado a dúvida que conduzia o interesse de Aurand. Por fim, ainda sem cortes, volta a observar o lago.

Uma rápida tomada parece orquestrar uma surpreendente coreografia casual que refaz seus rumos pela fidelidade ao instante. Sami aponta para o lago ou para o cachorro? Impossível saber. O cachorro, obstinado, completa seu trajeto sem perder o rebolado. Aurand repara o movimento do animal e a câmera desordena. Melhor checar duas vezes o lago para garantir que não se perdeu nada enquanto distraída (atentada) pelo cachorro. O mesmo plano do olhar agora com uma enorme risada estampada na face de Sami. Qual movimento desta coreografia inesperada pode nos dar indícios do segredo por trás dos sorrisos espontâneos tão recorrentes? Suponho que o privilégio do olhar que é sempre visitante (fiel a diretriz mais certeira do presente: a da sinceridade aos sentidos como criadores de sentido) seja a facilidade magnética de atrair, de ser presente para estar no presente; como uma meditação partindo do vazio, a modelagem da concretude se depara constantemente com “justo uma imagem”!