Despir, vestir, fantasiar
Por Roberta Pedrosa
As if there were no
such thing as integrity!
Frank O’Hara
Sentada no sofá de seu moderno apartamento em Londres, Julie (Honor Byrne) veste uma jaqueta verde com uma estampa no bolso esquerdo que diz “U.S. Army”. Ela olha atentamente fotos que pertencem ao seu namorado Anthony (Tom Burke). Ao perguntar-lhe onde as fotos foram tiradas ele responde “Afeganistão”. Poderia se dizer que essa imagem resume a relação entre Julie e Anthony: a fascinação dela por ele passa por uma crença de que, por sua idade e por suas experiências, ele conhece mais do mundo, enquanto ela, uma estudante de cinema proveniente de uma família rica de hábitos quase aristocráticos, teria uma vida demasiado restrita à sua bolha social. Suas experiências seriam tão artificiais quanto a estampa de sua jaqueta.
Mas apesar do lado explícito e até clichê de um relacionamento entre uma jovem e um homem mais velho, que acaba por seduzi-la por “saber mais da vida” e se aproveita dela para manter seus prazeres e seus vícios, dificilmente The Souvenir de Joanna Hogg e, diga-se de passagem, qualquer relação humana, poderia se reduzir a essa descrição. A sequência de filmes, mais do que a história de um relacionamento, é um exercício de compreensão de um momento crucial do próprio passado de J. H. (seja este de Julie Harte ou de Joanna Hogg).
Tomando certa distância, o relacionamento com Anthony é também um convite para Julie trocar de roupas, no sentido figurado e literal (no filme de Hogg as experiências contaminam mais os objetos do que as palavras). Ao lado dos casacos cor de rosa, e blusas largas de pijama passam a coexistir ternos sob medida e lingeries retrô. Anthony introduz um romantismo em Julie. Tal romantismo, ao mesmo tempo que sustenta diversos abusos cometidos pelo namorado, um junkie, viciado em heroína, é também a possibilidade de sonhar de olhos abertos, de viver a vida em outros termos.

A dependência emocional e financeira da mãe, interpretada por Tilda Swinton (que além da mãe de Honor Byrne, foi atriz principal do primeiro curta metragem universitário de Joanna Hogg na década de 1980), vai sendo substituída aos poucos pelas angústias do relacionamento amoroso e, especialmente na parte II, pelas angústias da realização cinematográfica. Mas nenhuma ruptura se dá de uma vez, e Julie abre e fecha os olhos, como quando se acorda no meio da noite e não se sabe o que pertence aos sonhos ou à realidade.
Se, por um lado, o filme é cronológico e bem delimitado, sendo o início da parte I o primeiro encontro entre Julie e Anthony e o final, a morte dele. E a parte II, iniciando com o luto de Julie e terminando com a exibição do filme feito em homenagem a ele. Por outro lado, há um elemento caótico, tanto pela própria personalidade de Julie, indecisa e impulsiva, quanto pelo caráter experimental, metafórico e autoconsciente da proposta de direção de Hogg. The Souvenir é ao mesmo tempo um quadro, o filme que estamos vendo, o filme produzido por Julie e ainda um terceiro filme que é projetado em sua formatura (cujas imagens não são as mesmas que vimos sendo filmadas pela protagonista na parte II).
Essas sobreposições operam de várias maneiras. Por vezes diretas, como as repetições dos títulos e iniciais. Por outras vezes com mais sutileza, como nas diversas evocações imagéticas indiretas da pintura The Souvenir: seja pelo figurino romântico, pela constante leitura de cartas de Anthony e pelas paisagens clássicas inglesas que costumam vir acompanhadas dessas leituras.
De maneira geral, os filmes de Hogg, são sempre centrados em uma casa (em Exhibition de 2013e Archipelago de 2010 a locação é tão protagonista quanto as personagens), e apesar do mesmo acontecer em The Souvenir, sendo o apartamento de Julie a locação central e o reflexo de sua vida interior, esse apartamento está sempre se metamorfoseando e a personagem muda de locação constantemente. Ela vive entre a faculdade, a casa da mãe, os sets de filmagem, a casa de amigos e na parte II, o seu próprio apartamento é parcialmente transportado e reconstruído dentro do set de filmagem. A mesma dinâmica acontece com todos os outros aspectos do filme, desde o formato (filmado em 16mm, com inserções de super 8 e fotografias em preto e branco) até a trilha sonora, os figurinos, a quantidade quase excessiva de personagens que entram e saem. Essas coexistências de técnicas, estilos e pequenas incongruências não são tão marcadas a ponto de produzirem muito estranhamento. Há uma fluidez no filme que pareceria impossível depois da descrição dos procedimentos acima, mas o que parece unir tudo isso é a personagem de Honor Byrne, seu momento de novas descobertas, sentimentos e incertezas.
“Quem era Anthony?” É a pergunta que Julie tenta incessantemente responder na parte II, quando ela vai procurar entender não só que vida ele levava quando ela não estava ao seu lado, como também reviver através das filmagens momentos que eles tiveram juntos. “Quem era Julie?” É a pergunta proposta por Hogg. Nas quase 4h que somam as duas partes da sequência, nunca presenciamos uma cena que Julie também não participe ou observe. Nenhuma das perguntas tem uma resposta, Hogg filma sempre de modo a adicionar uma nova camada de compreensão e contradição. The Souvenir é o oposto da caricatura, ao invés de reduzir as pessoas a uma característica marcante, busca sempre ir mais adiante, construir mais detalhes, tornar as pessoas mais complexas (e em alguma medida menos originais). As 4 horas poderiam facilmente se tornar 8 ou 12 guiadas não pela busca de uma resposta, mas pela fascinação da pergunta.