Um Mundo Flutuante

Sobre este cinema de luz

Por Fernando de Mendonça

Sobre este cinema de luz, como bem podemos denominar o conjunto integral de filmes de Jean-Claude Rousseau, haveria mesmo de recair o peso de uma responsabilidade, de um compromisso direto com os contornos do mundo, não para que de alguma forma ele seguisse a contramão de sua latência – toda ela alheia a isso que por aí chamam de cinema responsável, ou necessário, pior adjetivo que se pode dar a um filme neste primeiro quarto de século, como se tem feito tão habitualmente por cinefilias da cultura, junto a produtos e polêmicas do momento –, mas, para que se cumprisse tudo aquilo que subsistia na poesia/profecia desde as primeiras imagens e sons captados por sua inquietação de estar e permanecer em um mundo de formas falíveis. Sim, cada peça desta filmografia, dos curtas mais inofensivos aos longas de combate, todos os caminhos de Rousseau apontavam na direção da culminância que se atinge em Um mundo flutuante. Uma trajetória de anunciação. De iluminação. De luz, ao fim e ao princípio de tudo.

Dificilmente não se pensará para sempre que o legado deste realizador, desde a sua estreia há já quase quarenta anos, foi um dos que mais profundamente contemplou a redução humana em seu absoluto estado de isolamento, por meio de imagens, quadros, janelas e espelhos de uma precisão filosófica e, por isso mesmo, irresoluta e irrestritamente aberta. De tudo o que já se pensou e falou sobre a sua propensão ao estar só em um mundo fechado (de pequenos quartos a insondáveis vales), é certo que não se diminui a surpresa de encontrarmos hoje, neste cinema-de-câmara, um dos espíritos mais efetivamente preparados para enfrentar, com a câmera, o enjaulamento pandêmico que varreria o globo no ano de 2020. Pois foi ali, no olho do furacão, que um cineasta respondeu ao presente como se falasse a todos os tempos da história terrestre.

Das cartas e movimentos testamentários (Moça Lendo uma Carta à Janela, Jeune Femme à la Fenêtre Lisant Une Lettre, 1983 / Keep in Touch, 1987) às ruínas e densas escuridões (As Antiguidades de Roma, Les Antiquités de Rome, 1991 / O Vale Fechado, La Vallé Close, 1995) que muito habitaram o imaginário de Rousseau, chega-se hoje ao consumado olhar de seu vertiginoso esvaziamento formal e narrativo. Àquilo que o mundo se reduziu nos últimos dois anos era tudo ao que este realizador se impunha em sua vida criativa, desde sempre. À simplificação de meios e técnicas que se limitaram artistas condizia toda a rotina pregressa deste homem e de sua visão. A rigor, falamos de um cinema sem necessidade de redirecionamento, pois todo ele, em si mesmo, já nos traz em sua ontologia esta condição de desvio, de realocação e imediata refração do real. Uma ascendência congênere ao que se traça desde os primeiros cinemas e da guarida encontrada neste gesto de capturar imagens, de emoldurar matérias, de amparar memórias.

Não por acaso, o centro dramático de Un Monde Flottant, ancora-se – como num filme clássico – ao dilema existencial de um objeto: um guarda-chuva esquecido pelo próprio Rousseau em um quarto de hotel no Japão. De um elemento que se justifica pela sua qualidade de amparo, desampara-se a memória e se ironizam as mazelas do esquecimento, questionando-se sua real procedência, pois, em um filme (mesmo nos de alguém a quem se teima em aprisionar ao documental), toda lembrança e apagamento subsistem como procrastinação da vida, como um arroubo de ficção. Vem daí a divertida armadilha deixada pela montagem da cena em que o próximo hóspede encontrará o objeto perdido e pensará no que fazer a respeito, em um momento quando o “ator” (todas as aspas possíveis a este corpo no mundo) erra sua posição, sorri e se desculpa para a câmera / para Rousseau / para nós. 

Para que se documente a vida, é preciso inventá-la. Para que se enxergue a luz, é preciso sombreá-la. Na recente e definitiva flutuação de Rousseau, todas as potências enfatizam que não se podem temer a ilusão e a escuridão; dessas, advêm todo o efeito contrário de seu cinema. Vê-lo afundado na sombra de uma representação com seu próprio corpo, expondo seu dispositivo numa coerência que remonta ao que já compunha nos anos de 1980, dá-nos a solene quietude de uma solidão consciente, austera, modulada por uma escolha pessoal de ocupação do mundo. Curiosamente, de um autor que sempre incomodou e desafiou as maneiras de olhar, oferta-se hoje um filme que, pelo seu equilíbrio e contenção, pode nos apaziguar e renovar a esperança de que, sim, a despeito dos tempos, continuaremos a ver, a lembrar, a resistir e dizer: estivemos aqui.