Por Leodoro Camilo-Fernandes

A disposição do título nos créditos iniciais
Zeros
And
Ones
me fez achar que poderia haver uma palavra ali:
ZAO. Uma breve pesquisa me apontou duas possibilidades de ZAO, uma grega e uma chinesa. Ei-las:
VIVER, ESTAR ENTRE OS VIVOS: em Sportin’ Life (2020), filme anterior a este Zeros e Uns, Ferrara pensava, em primeira pessoa, o que é estar aqui agora. Refugiado intelectual na Itália, é daí que Abel vai pensar o estar entre os vivos durante uma pandemia global no primeiro país a sofrer com mais intensidade a inclemência do vírus.
Um trem chega, e até aí tudo bem – isso aqui é o cinema after all – Ciotat ou Roma, ontem ou hoje. Na descida do trem: homens de máscara, Ethan Hawke de máscara; militares de armas em mãos; mangueiras limpam, desinfetam o chão da estação. JJ, o gêmeo militar que acaba de chegar, sai para a noite de uma Roma vazia. Parece que estamos mesmo num fim de mundo, parece que estamos no agora.
Há uma guerra e as máscaras (e o beijo de máscaras) não escondem que ela acontece no ar – assim como ela é também uma guerra que acontece nas/pelas imagens, câmeras e telas são armas e mapas: nesta Roma afogada na noite da guerra, a luz das ruas não é capaz de iluminar como o brilho individual dos celulares e tablets.
“Ele é viciado nas telas”, diz uma traficante sobre seu segurança. As imagens de Ferrara vêm de todos os lugares: câmeras militares, térmicas e infravermelhas; celulares em videochamada; uma televisão no lugar de um padre na missa; drones na noite da cidade; iconografia religiosa. Quando uma agente russa diz a JJ que solte sua arma, é uma câmera que ele primeiro solta ao chão, a pistola vai cair apenas depois.
Os prazeres ainda estão aqui neste fim de mundo: o sexo, a droga, o dinheiro. Duas moças se beijando são ofertadas a JJ com a certeza de que, nestes tempos de máscaras, “elas estão negativas”. O dinheiro que paga a droga é higienizado com cuidado pelas mãos da traficante. Pouco depois voltamos a ver dinheiro em cena: se antes ele pagava pela droga, agora o gêmeo militar vai a uma igreja e deposita uma oferta no altar.
E Ferrara explode o Vaticano. A guerra de três mil anos. Jesus era só mais um soldado.
MANHÃ, AURORA, BOM DIA: o gêmeo revolucionário é capturado e submetido a um interrogatório ao qual assistimos a partir da tela de um tablet. Em seu monólogo, através da defesa e do ataque do revolucionário, é Ferrara (e Woody Guthrie) quem fala: “this machine kills fascists”.
Ele cita um trecho de This Land is Your Land, diz que é preciso mais do que só armas pra se matar um homem, que ele poderia incendiar a si mesmo (como é que ninguém está se incendiando?).
E é Ferrara quem grita com ele: “Isto é um campo de batalha!”.
Impossível não pensar em Samuel Fuller aqui, a film is like a battleground, nesta defesa do próprio cinema que Ferrara lança pela voz de Ethan Hawke. Como em Fuller, o cinema nas mãos de Abel é a arma e é a batalha de um cineasta que não está disposto a abrir mão de seus ideais. Também idealista do que está por vir: “se só escutarmos o que já conhecemos, nada de novo vai acontecer”.
Junto de JJ, o filme vai até a luz do dia. O rosto da criança sob a luz da aurora no colo da mãe. Soldados se preparam, se escondem. O dia nasce: uma menina passeia saltitando na mesma rua onde antes passaram tanques. Nuvens no céu finalmente azul da manhã. Crianças jogam bola na praça onde antes se escondiam os soldados. Uma mulher compra flores (ainda temos as flores). Carros voltam às ruas. E de pássaros em bando no céu, a câmera desce até duas crianças que andam de mãos dadas.
– Estar entre os vivos na nova (na mesma) aurora.