Por Tainah Negreiros
Hong Sang Soo vê algo diferente em Isabelle Huppert, diferente do que estamos habituados a ver na diversidade de papéis da atriz. Sai de cena uma certa dureza como máscara, dando lugar a uma presença de transformação. Essa presença surge a partir de uma interrupção da ordem, primeiro pelo fato de ela ser uma estrangeira, mas, sobretudo, pela criação de uma presença que convida a olhar o mundo de outra maneira. Digo isso pensando principalmente em A Câmera de Claire e neste As Necessidades da Viajante.Se em A Câmera de Claire a câmera era um dispositivo de transformação do olhar sobre o mundo e da realidade íntima, em As Necessidades da Viajante é a palavra falada que assume esse lugar. A centralidade da palavra é tamanha que, no início, pensei se tratar de um filme sobre teatro — imaginei que Iris, a personagem de Isabelle Huppert, fosse uma professora de teatro e que as perguntas que fazia àquelas e àqueles que encontrava estivessem relacionadas à busca da atriz. Depois, compreendi que Iris ensinava francês por meio de um método que deve passar pelo coração.

As pessoas que a personagem encontra conversam, disfarçam, rodeiam, enquanto Iris as interrompe na busca de alguma verdade íntima, contribuindo para o aprendizado da língua. Mais tarde, percebi novamente que o filme é, sim, sobre teatro — sobre passar pelo coração para dizer algo verdadeiro, seja na língua nativa, seja em outra. É também sobre conseguir expressar uma verdade profunda por meio de uma nova linguagem. Logo entendi que o filme busca, de forma radical, uma verdade íntima de seus personagens, guiada pela presença de Iris. Ela é uma personagem que interrompe farsas, normas e repetições do pensamento.Nesse mundo de sincera existência proposto por Hong Sang-soo, poetas e poetisas são fundamentais e estão por toda parte: em pequenos apartamentos, com aluguel a pagar; vivos, mortos, ou presentes em pedras espalhadas pela cidade, encontrando a resistência que Iris propõe. As Necessidades da Viajante é um desses belos filmes sobre não se trair, sobre oferecer ao mundo uma franqueza poética, ainda que o retorno material seja precário. Mesmo com uma casa alugada, mesmo vivendo de bicos, a liberdade é preservada de alguma forma.
A casa simples e alugada do poeta já estava presente em Os Dias de Nós, assim como os dilemas artísticos, familiares e cotidianos. Aqui, a presença de Iris consola o poeta e o convoca à criação, à persistência em uma existência franca, a despeito da família, do aluguel, do precário ou mesmo das dores da vida, e por ela, e também por tê-las vivido. Ela mesma, a mulher que interrompe, está cansada, tem necessidades, caminha, se senta perto do verde, recosta-se, espera e se move.
O filme é belo, movendo seus personagens enquanto opera uma mágica em quem o assiste. Quando terminou, me senti diferente: me movia de outra maneira, com uma cinética nova e própria, numa aceitação contente do convite à vida que o filme de Hong Sang-soo e Huppert faz. A sensação que As Necessidades da Viajante deixa é a de atender a um desejo simples, mas profundo, que muitas vezes ignoramos por distração ou pressa — como refrescar os pés em um riacho, pelo frescor.