Carnificina bucólica

Por Amanda Lana

 

“And the black flies, the little black flies
Always the black fly, no matter where you go
I’ll die with the black fly a-picking my bones
In north on-tar-i-o-i-o, in north on-tar-i-o”

In a Violent Nature chegou no meu radar como o novo slasher da Shudder em que a história é narrada do ponto de vista do assassino, com uma veia experimental, atraindo termos como “slow cinema” e “ambient horror”, além de comparações com a estética dos videogames. A premissa, por si só, é interessante (acredito que todo fã do subgênero já pensou em como seria seguir os passos do seu maníaco favorito), mas o que de fato chama a atenção é um exercício formal de gênero que reflete convenções estéticas e narrativas nessa perspectiva do assassino. Embora o diretor às vezes se perca no exercício – especialmente no final –, ele consegue caminhar sobre uma linha fina entre revisionismo, homenagem e paródia.

O assassino, chamado Johnny, é uma maçaroca de referências muito bem costurada, tendo em si um pouco da criança brutalizada de Jason e do Mal em forma humana de Michael Myers, que casualmente extermina todos em seu caminho e que mantém similaridades mais explícitas na caracterização e fisicalidade. A ambientação, embora remonte de forma mais óbvia aos slashers de acampamento dos anos 1980, tem muito da atmosfera de horrores rurais como Pânico ao Anoitecer (1976) e Criatura do Lago Negro (1976), em que a natureza deixa de ser apenas cenário e se torna uma força opressiva, lado a lado com o monstro à espreita. Johnny é um morto-vivo, um espectro da floresta, nascendo de novo da terra. Por mais que nele existam lampejos de humanidade, como em pequenos momentos de ingenuidade e de malícia, ele opera majoritariamente como um predador, um animal. O filme é permeado por um senso estranho de apatia, com vários momentos estendidos do assassino caminhando pela floresta – que destacam os barulhos da mata e a beleza do local – interrompidos por cenas de violência bastante explícitas, com efeitos muito legais.

A violência no slasher vive na dialética entre o espetáculo e a apatia, brincando com as reações que o grotesco pode despertar. O apelo está sempre circunscrito à pilha de corpos dilacerados que acompanhamos pelo caminho. É de onde vem o desconforto e também a diversão da experiência, indissociáveis. Quanto mais gráfica e criativa a cena de assassinato, melhor, e nos tornamos, em algum grau e mesmo que a contragosto, mais confortáveis com a visão de nossas entranhas.

 A força do filme reside na habilidade de representar Johnny como parte integrante da natureza, destacando seu papel como uma espécie de avatar de uma violência brutalmente indiferente. A natureza pode ser hostil, perigosa e violenta, mas ela não tem a intenção deliberada, ela não se importa. O filme coloca o assassino nesse lugar de “força da natureza” a todo tempo e de forma frontal, e essa dinâmica subjaz todas as atrocidades que acontecem. É uma obra tão apática quanto seu protagonista, tornando-a curiosamente hipnotizante. Fiquei genuinamente imersa na lentidão dos passos, no estar sempre à espreita, sempre à margem das relações humanas normais, mais bicho que gente.