MaXXXine, verdadeira star

Por Ezequiel Silva

Uma atriz nunca é apenas a imagem que temos dela. E essa imagem, difícil de identificar sem que nos identifiquemos nós mesmos, esquiva-se do inteligível. Quanto mais nós a reconhecemos, fantasma luminoso que assombra nossas cavernas e sacode nossas correntes, mais é preciso conformar-se: da ideia que ela reflete, nós só temos uma vaga intuição. Então, falamos de outras imagens…
(Camille Nevers)

Entre as afinidades compartilhadas por MaXXXine e A Substância, aquela que mais desperta o meu interesse e leva-me a colocá-los em perspectiva é o fato de que ambos, cada qual à sua maneira, puseram à vista uma epidemia que tem acometido a crítica de cinema – ou, se você preferir, uma parcela da crítica de cinema – no que diz respeito à recepção de lançamentos. Refiro-me especificamente à má-vontade para com exemplares recentes do horror que têm sido fortemente atacados por uma espécie de febre do imediatismo, pré-determinada, a qual até agora parece-me ter sido capaz de tão somente limitá-los às suas supostas referências cinematográficas. A similaridade das análises e dos chavões utilizados para rejeitá-los – eu não aguento mais aquela historinha do filme de terror envergonhado que tem medo de se assumir enquanto filme de terror verdadeiro – instiga a minha tentativa de compreender o que se passa, sobretudo, com as patinhas feias¹ da temporada. Como disse ao amigo, que constrangeu Substância à um mero comentário sobre a imposição dos padrões de beleza, acredito que podemos ser melhores do que isso.

Logo, antes de chegar em MaXXXine, volto-me ao trecho de Camille Nevers acima destacado, o qual fez-me a cabeça no caminho de volta para casa depois de assistir ao filme pela primeira vez. Muito embora eu esteja lançando mão das palavras da crítica de cinema francesa em um contexto análogo ao originário², se aceitarmos e ampliarmos o escopo da hipótese em relação à imagem da atriz, percebemos que ela oferece uma pista, ou quiçá um diagnóstico, para entendermos essa enfermidade que transformou uma fatia da recepção negativa desses dois filmes em um verdadeiro concurso de citações de outros filmes.

É que muitas coisas foram ditas acerca das outras imagens, por exemplo, das mil e tantas referências virtuais e visuais de MaXXXine. Eu vi colegas espumando pela boca diante de mais um momento “citei Hitchcock”, para não deixar de mencionar algumas das gracinhas promovidas pelo título. No entanto, falou-se pouco desta imagem que, por vezes, aparenta mesmo estar se esquivando do inteligível. O que até poderia explicar a razão pela qual ela tem sido, se não completamente ignorada, apreciada com tamanha indisposição. Sendo assim, pergunto-me se talvez devêssemos nos conformar e aceitar não mais do que a vaga intuição que dela possuímos? Eu não acho que esse seja o caso, máxime diante daquilo que temos de substância da personagem encarnada por Mia Goth nestes três filmes, os quais ela tomou para si lançando-se como roteirista, produtora e (rock)star.

 Dos seus papéis anteriores, portanto, não restou muita coisa. A caipira ingênua que fora repreendida desde a infância, quase única e exclusivamente por conta da transgressividade do sexo feminino – sexo esse que continua incomodando muitos por aí –, ficou para trás. Assombrada por fantasmas do passado, mas também do presente – os quais são representados pelo estigma do início de carreira na indústria pornográfica –, Maxine agora caminha bravamente à moda da época, exibindo um novo penteado, disposta a fazer tudo aquilo que for necessário para assegurar o seu lugar junto às estrelas. Ela tem ciência do caminho a seguir e não faz curvas à toa, assumindo com isso o papel de protagonista desta jornada que, em última instância, trata-se pura e simplesmente de um desafio de vida ou morte – e ainda morte ao patriarcado. Para enxergar isso, basta se ater ao contexto, ou seja, ao fundo desta Hollywood habitada por mortos-vivos e sombras que confundem-se com transeuntes nestas ruas iluminadas por luzes fluorescentes, um cenário de Buster Keatons pervertidos e Bates Motéis abandonados. 

Eu devo concordar que esse tanto de estímulos, por assim dizer, pode realmente distrair o espectador. Digamos que essa imoderação não colabora com o processo de identificação da heroína. E é nesta encruzilhada que eu pego emprestado da pesquisadora Julianne Pidduck uma chave de leitura que considero apropriada para o caso de MaXXXine. Chave essa que inscreve a personagem na linhagem da femme fatale do cinema hollywoodiano da década de 1990. Nos thrillers eróticos desse período, como A Mão Que Balança o Berço e Instinto Selvagem, esses arquétipos são representados pela figura da mulher violenta – a qual é violenta inclusive contra outras mulheres. Ao denunciarem uma reação do masculino à ameaça feminina, tais títulos foram considerados como sendo anti-feministas e reacionários. Pidduck argumenta³, no entanto, que eles ainda podem oferecer algo de estimulante para o discurso feminista por meio deste efeito de inversão que permite à espectadora explorar a metamorfose do objeto de violência – a mulher passiva – no sujeito – a mulher ativa. 

Uma das tarefas da crítica deveria ser decifrar os estímulos dos excessos discursivos desses filmes, antes de constrangê-los como fizeram com tantas atrações fatais no passado. Eu até reconheço que um filme como MaXXXine – o qual surgiu para encerrar uma trilogia de segunda divisão, ao lado de X e Pearl, a qual foi recompensada por um sucesso inesperado – pode representar uma fantasia um tanto quanto fugaz na forma de uma colagem pop-up cafona ou de um vídeo de TikTok instantâneo. Por esse ângulo, a obra se assemelha aos equívocos engendrados pela recepção crítica, da qual essa aqui não se exime. Só que a excitante mutação que acontece com essa personagem e, ouço dizer, persona de cinema, a qual se dá a partir do trabalho da atriz, roteirista e produtora, vale ser destacado. A questão é que deixar qualquer afirmação como essa a cargo da sobriedade do tempo seria uma escolha muito mais confortável do que deixar-se levar pela onda de reações negativas que, em alguma medida, só contribuíram para o hype da produção. O lance é que, no fim das contas, ficar acomodado não deveria ser uma opção. Nessa encruzilhada – e vocês me dêem licença –, eu não ficarei parado. Se a Camille Nevers escreveu que a Jodie Foster avança com culhões, eu diria que a Mia Goth avança arrancando alguns deles – e é com ela que eu vou.

¹ É sintomático, ao meu ver, que os alvos de reações tão negativas sejam justamente dois filmes protagonizados por personagens femininas. 

² O excerto é de Foster, verdadeira star, publicado na revista Cahiers du Cinéma, nº 452, em 1992. No texto, Nevers chama atenção para o trabalho de Jodie Foster, a qual estreava na direção de longas-metragens com Mentes que Brilham e que já teria a “envergadura de uma artista autêntica, atriz e cineasta cada vez mais entremeadas”. Traduzido para o português por Leticia Weber Jarek.

³ La femme fatale hollywoodienne des années 90 – Basic Instinct, un cas de figure, publicado na revista Vertigo, nº 14 (dossiê “Féminin/masculin”), em 1996. Traduzido para o português, a partir de tradução do francês, por Leticia Weber Jarek.