Por Rafaela F. Marques
Este é um texto sobre amor. Mais que isso, as linhas aqui escritas querem refletir, e fazer refletir, a respeito do que usualmente chamamos amor, ou ainda, aquilo que se vende como sendo esse sentimento. Na verdade, como nos esclarece bell hooks, enquanto for “apenas” sentimento o amor só funciona para aqueles que dominam, aqueles que tem, sempre tiveram e querem continuar tendo poder. A autora estadunidense afirma, em Tudo sobre o amor, que pouco se sabe realmente sobre o amor e que isto estaria na origem dos sérios problemas sociais, afetivos e mesmo climáticos com os quais nos deparamos cotidianamente. Amor enquanto sentimento tem a ver com poder, com um tipo específico dele, o poder que subjuga, exclui, que aventa e defende, em casos extremos, o modus operandi social cuja base reside na escassez e o telos, em seu elogio. O amor, quando é mais que um sentimento, vai além do que usualmente vemos aparecer em livros, filmes, músicas e ditados populares: o amor é o que o amor faz, e nele não cabem ações violentas.
A princípio, Garotas em fuga (2024) pode ser encarado como um filme no qual o amor não é apenas um sentimento. Por se tratar de um road movie lésbico no qual a principal tarefa de Jamie (Margaret Qualley) é trabalhar pela libertação sexual de sua amiga Marian (Geraldine Viswanathan), havendo aí um pano de fundo de crítica à re-ascensão da extrema direita estadunidense, poderíamos pensar que o amor aparece aqui como ação. Mas, para que seja amor, não basta qualquer tipo de ação. Ainda de acordo com hooks, é preciso que as ações tenham como finalidade contribuir para o crescimento pessoal e espiritual da pessoa amada.
Aqui, quero envergar o conceito da autora e, como se trata de uma obra de arte, pensar se o amor enquanto ação também aparece direcionado aos espectadores. Embora as ações de Jamie direcionadas a Marian – e de Ethan Coen a nós – pareçam amorosas, um olhar mais atento à forma como essas ações são postas em tela nos mostra que não é bem assim. O que me incomoda em Garotas em fuga é uma pretensa continuidade orgânica entre ações separadas no tempo e no espaço – ações de “cuidado” que vemos Jamie desempenhar, por exemplo – e uma lógica amorosa que serve ao patriarcado e à família nuclear. Nesse caso, a mentira está na continuidade necessária entre ações aparentemente cuidadosas e um tipo de amor específico que é coroado no final do filme: aquele que tem como finalidade o casamento monogâmico e o fortalecimento da família nuclear. Trata-se, então, de uma falácia, pura retórica com vistas a manter a subserviência feminina a ideais de amor que, seja ele hétero, bi ou homossexual, trabalham para a manutenção da dominação. Vejamos como, no filme, isso se manifesta.
Existe um abismo entre o que Jamie e Marian realmente são e aquilo que, ao término do filme, elas se tornam. Abismo este que só faz aparecer de forma pungente o amor dominante e poderoso, que se manifesta e se vende apenas como sentimento. Algo similar ocorre entre a cumplicidade que criamos com o filme e, por consequência, com seu realizador. Ficamos felizes com o “final feliz” das duas heroínas, pois todo o filme é feito para que simpatizemos com ações e comportamentos muito conhecidos e ordinários, que aqui são protagonizados por duas mulheres e não um casal heterossexual. Posso citar, nesse contexto, a cena do “jantar romântico” perto do desfecho do filme: é só depois de jantarem, dançarem e tomarem champanhe, quer dizer, após um primeiro encontro ideal – prerrogativa do imaginário do amor romântico –, que as personagens, finalmente, transam. Aparentemente Garotas em fuga é um filme progressista, que trata de questões profundas e urgentes, todavia, ao compará-lo, de forma quase acidental, com O amor sangra (2024), me surpreendeu a sensação gritante de que eu havia sido enganada por um encadeamento de cenas bem feitas e interessantes. Seu pano de fundo, na verdade, não podia ser mais batido e conservador: a manutenção e o fortalecimento do amor romântico bem como do casamento monogâmico, duas estruturas-chave para a perpetuação das violências e abusos que, na sociedade ocidental, acometem principalmente as mulheres.

Jamie e Marian passam por mudanças um tanto bruscas no decorrer do filme. Enquanto Jamie torna-se cada vez menos “piranha” e mais “apaixonada”, assumindo, no final, um comportamento muito comumente associado a homens – dormir logo após o gozo sexual, ignorando completamente a “parceira” –, Marian se “entrega ao amor” e, finalmente, consegue manter uma relação sexual após anos “criando teias de aranha”. Os flashbacks que nos explicam, tintin por tintin, a atração da última por mulheres são quase anedóticos, pois apenas aludem a um “ódio aos homens” (o marido nojento da vizinha que nadava pelada), sem que tal questão seja realmente trabalhada ou possua um valor dentro da economia da narrativa. Isso pode ser compreendido, inclusive, como uma ferramenta retórica alusiva, superficial, utilizada só para lembrar ao espectador o quão “feminista” é o filme.
Me pergunto, então, se casar e constituir família seria a única maneira de amar, isto é, de se preocupar em contribuir para o crescimento da pessoa que se ama. Em suas práticas não-monogâmicas, ainda que antiéticas, Jamie precisava de um “amor de verdade” que a colocasse “na linha”? Com sua frigidez quase misantropa e sua lesbianidade ainda meio dentro do armário, Marian precisava se recordar, na marra, de seus primórdios lésbicos graças às investidas de uma “amiga” que era, na verdade, “mais que amiga”? Além disso, em Garotas em fuga, todos os recursos à fantasia, ao lisérgico e à psicodelia só servem para nos advertir que, seguidas de qualquer deslize ético, como ocorre com o Senador Channel (Matt Damon), consequências nefastas se passarão. Não haveria qualquer imbróglio se Channel não tivesse se comportado de maneira hipócrita, fumando maconha uma vez na universidade e permitindo, por estar doidão, que uma hippie (Miley Cyrus) fizesse um molde de seu pau. Molde este que posteriormente seria transformado em um vibrador, dando origem a toda a narrativa do filme com o qual me ocupo aqui. Ou seja, caso nos mantenhamos no bom caminho, aquele dos papéis sociais e eróticos bem definidos e organizados, nenhum mal poderá ocorrer, nenhuma falta (sexual ou amorosa) poderá nos acometer.
Algo muito diverso acontece com O amor sangra. Ali, a fantasia não se ocupa com querelas conservadoras, pelo contrário. Quando Jackie (Katy O’Brian) se torna gigantesca, ganhando proporções monstruosas – tanto na ocasião do assassinato de J.J. (Dave Franco) quanto de Lou Sr. (Ed Harris) –, a intenção da personagem é salvar mulheres em situações de perigo. Enquanto Rose Glass se vale da fantasia para mitigar as ameaças às quais nós somos expostas cotidianamente, Coen usa-a com a finalidade de nos lembrar dos papéis sociais previamente estabelecidos aos quais é melhor se curvar.
Voltando a O amor sangra, se há uma diferença de tamanho nas situações envolvendo J.J. e Lou Sr., esta se deve, principalmente a três fatores: a quantidade de perigo real à qual estava exposta a mulher em questão, a capacidade do perpetrador de fazer mal e a relação de proximidade de Jackie com a vítima. Segundo o próprio filme, em um dos cartazes motivacionais expostos na academia de ginástica gerida por Lou: “o corpo alcança o que a mente acredita”. Se a mente de Jackie – bem como seu coração cheio de amor por Lou – acredita, nesses momentos, que é preciso dar cabo da vida daqueles dois homens violentos e abusadores, embora com graus e intensidades distintos, é isso que ela fará, transformando-se duas vezes em gigante de tamanhos igualmente variados para proteger Beth (Jena Malone) e Lou. A fantasia aqui é usada para brilhar, para garantir – ainda que por métodos condenáveis – a felicidade, a capacidade de sonhar e aproveitar as próprias potências juntamente com a pessoa amada. Em Garotas em fuga, ela serve para lembrar dos erros, de “desvios” de caráter que cobram caro.

Outro ponto divergente entre os dois filmes é justamente a questão do amor. Jackie e Lou possuem uma relação amorosa muito mais autêntica e menos conservadora que Jamie e Marian. O fato de boa parte do filme girar em torno de uma competição de fisiculturismo e se passar em uma academia pode parecer conflitante com o que escrevo, visto que o amor enquanto ação não pode se preocupar em enquadrar a relação, e menos ainda a/o parceira/o, em categorias preestabelecidas e validadas socialmente – sendo os ideais de beleza um bom e cruel exemplo dessas categorias. Dito de forma mais simples, tentar contribuir para o desenvolvimento pessoal e espiritual da pessoa amada implica, em alguma medida, aceitar essa pessoa como ela é, valorizá-la e auxiliar, sempre que possível, o desenvolvimento de suas potencialidades. Jackie não impõe a Lou seu modo de vida e tampouco Lou problematiza ou recusa as incursões da primeira em busca do corpo “perfeito”. Fica nítido para o espectador o quanto Jackie se sente feliz e realizada com a atividade que desempenha, cujos resultados são fonte de orgulho e jamais de angústia ou pressão estética. Lou, por sua vez, magra, pálida e nada atlética, inspira na namorada desejo e admiração, jamais recriminação ou rejeição.

À medida que o filme se desenrola, contrariamente ao que vemos em Garotas em fuga, as duas protagonistas não se transformam completamente nas “melhores versões de si mesmas” que agradariam aqueles que esperavam do filme um “final feliz” de contos de fadas contemporâneo, como é o caso do filme de Ethan Coen. Não há uma concessão ao amor romântico travestido de progressismo só por se tratar de um romance lésbico. Embora Jackie e Lou tenham passado por mudanças no decorrer da narrativa, nenhuma delas é da ordem do condicionamento a premissas socialmente impostas. Descobrimos que Lou é uma assassina profissional que lida com a culpa, embora seja ainda capaz de matar caso surja a necessidade, e que Jackie, mesmo que tenha matado dois homens, é afetuosa e triste devido à rejeição sofrida no seio familiar. Elas não se tornaram, ao cabo do filme, personagens mais “palatáveis”, pelo contrário, mas mesmo assim ambas se descobrem dignas de ser autenticamente amadas. No filme de Rose Glass, o que vemos é uma tentativa constante de contradizer aqueles que, como Beth – irmã constantemente agredida por um marido pelo qual, segundo ela, permanece perdidamente “apaixonada” –, afirmam que amor e violência ou amor e desrespeito podem andar juntos. Em um dos momentos finais de O amor sangra, Beth, furiosa, ataca Lou afirmando que ela nada sabe sobre o amor, mas quem não sabe nada sobre amor são aqueles que concordam que o único final feliz possível, independentemente da orientação sexual dos envolvidos, é aquele do casamento feliz de comercial de margarina.