O toque de Greice: sobre aparições e desencantos

Por Larissa Muniz

A pintura que ocasiona a desgraça de Greice retrata o momento em que Maria Madalena reconhece Jesus Cristo depois de sua ressurreição. Segundo o evangelho, num primeiro momento a discípula teria confundido Jesus com um jardineiro comum, até enxergar nele seu senhor e, num ímpeto de emoção, tentar tocá-lo. Um momento de luto se transforma em êxtase. Jesus, no entanto, delicadamente se desvia de Madalena e recusa seu impulso com um direto “Não me toque” – ou, em outras traduções, “Não me segure”, “Não me detenha”. No retrato clássico do quadro (que soma algumas reproduções na iconografia cristã), a mulher está ajoelhada aos pés de Jesus e estende a mão enquanto ele se contorce para evitar seu contato. A missão de Madalena, a partir dessa visão, é avisar aos outros discípulos que seu senhor restaurou a paz na terra e voltou aos céus. Não há tempo para a aproximação íntima que ela e Jesus tinham antes de sua crucificação. Ele se transformou num outro, numa imagem intocável, divina demais para a carne humana. 

Um exemplo é quando Márcia, prima de Greice, encontra Enrique, um trabalhador do hotel de Fortaleza, e diz que ele se parece com um garoto, Paulo de Paula, por quem ela e a prima eram apaixonadas na escola. Algumas cenas depois, Márcia aparece no quarto de hotel com o diário de Greice e a questiona sobre um relato no qual a protagonista narra que beijou o crush da prima. Greice nega a acusação e se lembra que a história era falsa. No mesmo diário ela  escreve que, durante uma excursão ao museu, se desequilibrou e furou uma pintura de Dom Pedro I, o que se conecta com sua disposição já adulta de desfigurar obras de artes canônicas. Fica a dúvida: os “incidentes” de Greice são de fato obras do acaso ou gestos não assumidos de desobediência? Afinal, tacar fogo no cânone, ou fazer Madalena tocar Jesus por meio do fogo, pode ser um tanto tentador, especialmente para uma personagem (e um filme) que assume tão despretensiosamente a manipulação – ou bandidagem, gambiarra, “jeitinho brasileiro” – como filosofia de vida. Mas qualquer manipulação, seja psicológica, seja manual (do toque), tem consequências. E é nesse ponto que habita o desencanto de Greice: visto de muito perto, nada é perfeito, nada é puro. Quando a cearense se aproxima demais do retrato divino, toda a vida que construiu na Europa é temporariamente suspensa e fica sob o risco de desabar completamente. De volta a Fortaleza, o incidente parece uma obra do destino que a faz escapar do encanto de Lisboa para matar as saudades de casa – lugar que a lembra constantemente que seus trambiques impactam também suas relações mais próximas. 

Greice é forasteira em qualquer cidade que perambula. Neste cenário, fugir da cidade natal em que não cabem mais seus sonhos ou fugir da cidade que escolheu para estudar artes são parte de um mesmo movimento de se recusar a uma identidade, origem ou referência única. E assim como as imagens não têm uma essência fixa — elas são sempre interpretações, reproduções e recriações —, a personagem também assume seu caráter transitório e múltiplo. Num mundo estruturado pelo roubo e pela falsificação (como, ao final do filme, Greice descobre ser o caso do quadro que ela queimou),  tocar a cópia é também assumir um descompromisso com o pacto do original. Em uma sucessão de improvisos criativos, a estudante contraria as diretrizes da tradição de seu campo de estudo, que comandam, junto de museus, galerias e exposições (e similar a Jesus no quadro de Ticiano), um singelo “Não me toque”. Greice sempre se aproxima demais e, com isso, parece reivindicar uma quebra da distância entre obra e espectatorialidade. 

Tal como sua protagonista, Mouramateus não tem medo de assumir seu desejo de manipular as imagens que o formaram enquanto cinéfilo e realizador para, então, montar uma cópia única a partir do encontro de diferentes referências cruzadas entre o Atlântico. Greice é uma comédia de erros, um drama, um filme de amadurecimento, uma farsa assumida, ou um filme que “Filia-se à comédias Globo, mas também faz uma ode aos malandros. Filia-se às comédias populares, mas também à sua própria classe artística.”, como aponta Renan Eduardo em crítica sobre o filme. Essa miscelânea de referências deixa evidente a relação entre Greice e a própria linguagem do longa: não há como separar mise en scène, direção, montagem, direção de arte, som, etc. da personagem de Amandyra: é como se o filme fosse seu espelho – uma cópia perfeita, mas invertida, cujas imagens funcionam como um jogo de reflexos que apontam para uma direção quando o objeto original está em outra posição. Ou, ainda, o filme é como a definição (ou oráculo) da artista Clea (Izabel Zuáa), “Greice é amiga das circunstâncias; transforma a mentira em verdade e escreve de trás para frente”. É a partir desse labirinto de espelhos, fraudes, cópias e originais que nós, espectadoras, observamos Greice (personagem e filme) de muito perto sem qualquer certeza de suas verdades ou mentiras.