Os pais e as leis (ou as armadilhas do presente)

Por Victor Cardozo

Em Intolerância (1916), dentro das linhas narrativas moduladas por Griffith como movimentos musicais em consonância através das eras, seria difícil esquecer que a linha contemporânea ao tempo do cineasta se chama The Mother and the Law (A Mãe e a Lei). Ora, todo melodrama não deixa de ser um movimento de urgência em resgate de uma vítima inocente. Salva ou perdida, essa vítima carrega a função comunal de definir a lei justa (os valores interiores que regem ou deveriam reger a comunidade) em substituição da lei injusta, arbitrária, insuficiente que costuma ser a lei da justiça terrena que conhecemos. Em The Mother and the Law, a mãe do título, heroína moral por excelência, tenta salvar do corredor da morte seu marido, inocente injustamente condenado. Sua questão de vida ou morte não é apenas a de resgatar seu amado, mas também legitimar a guarda da criança que é o fruto do amor dos dois. Nada poderia ser mais arquetípico. Essa família de inocentes tão ideais quanto comuns (mãe, pai e criança) dá às investigações morais e espirituais do tempo fílmico um senso de consequência imediata que contamina as tramas em paralelo e em igual medida é contaminada por elas. Da queda da Babilônia até o momento em que o cineasta decidiu fazer o seu filme, todos os choques de moral e violência coexistem em cósmica igualdade ao mesmo tempo em que o suspense é possível. É uma velha lição que passa despercebida nas (supostamente) surradas formas do melodrama e do classicismo, revisitadas de tempo a tempo como velhos fantasmas que hoje inspiram no público (supostamente) mais melancolia e irreverência que temor.

Em 2024, Shyamalan e Eastwood, dois cineastas veteranos do cinema norte-americano, muito bem versados em revisar tanto o classicismo quanto o melodrama, por alguma curiosa convergência, parecem abordar seus velhos problemas por um ângulo novo. O mote é justamente, pelo ponto de vista moral e emocional, o elo mais fraco dentro da trindade melodramática de Griffith: o do pai que precisa ser resgatado da lei. Armadilha (2024) e Jurado Nº 2 (2024) interrogam a imagem tradicional e prosaica do pai de família. Os protagonistas, Cooper (Josh Hartnett) e Justin Kemp (Nicholas Hoult) são homens brancos, bem apessoados, cuidadosamente ajustados socialmente, genuinamente devotados ao seu papel familiar. São leading men que caberiam perfeitamente no papel dos heróis puros e sem ambiguidade que contrapõe a virtude não raro ambivalente das primeiras heroínas de melodrama. A intriga surge à medida que justamente esse papel descomplicado entra em contradição direta com a justiça, tanto espiritual quanto terrena. 

Mas algumas peças serão trocadas de lugar nesse esquema. O foco dos mecanismos da trama está nas vítimas desses pais caídos em desgraça, onipresentes na diegese e mobilizadoras de um senso real de choque e consequência. Não deixa de ser curiosa também a escolha de ambos em posicionar suas filhas-atrizes ou atrizes-filhas em irônica e alarmante proximidade da violência. Em Armadilha, Saleka Night Shyamalan é Lady Raven, a cantora pop que eventualmente estará sob ameaça do serial killer, enquanto a filha do pai modelo/assassino, Riley (Ariel Donoghue) divide sua fervorosa adoração entre a cantora e o pai. Em Jurado Nº 2, Francesca Eastwood é Kendall, mulher cuja morte será o centro das deliberações do júri, enquanto que a filha do culpado/jurado é um bebê em um parto de risco antecipado com temor e tremor. Nos dois casos, é possível considerá-las o pivô das respectivas engrenagens de subgênero (thriller, filme de tribunal). Estão posicionadas duplamente como alvos em potencial da violência masculina e como motivadoras para que a punição seja evitada (curioso que dois protagonistas de resto tão distintos expressem  que seria um alívio se deixar capturar não fosse a ideia insuportável de abandonar suas filhas). As mães, por fim, não são fonte de nenhum conforto ou certeza moral, muito pelo contrário. Ao mesmo tempo em cumplicidade involuntária e agonia velada diante da ameaça ao lar, elas negociam sua participação no dilema introspectivo de seus maridos como uma resistência tortuosa à imobilidade que lhes é atribuída de início.

Em contraponto a todas essas leis, pesos e imperativos, há uma vertiginosa fluidez no que diz respeito aos códigos narrativos e às generalidades que caracterizam não apenas essa vida suburbana complacente, confortavelmente mantida pelos protagonistas, mas também as reações e justificativas acionadas por eles para que a domesticidade seja preservada. Nossas expectativas de público com a imagem desses homens são jogadas por vezes em rima e por vezes em dissonância com nossas expectativas com o tipo de filme e mobilização narrativa que pensamos estar vendo. Assim como a condução desses códigos, a encenação também vai da familiaridade à deformação: partimos da representação aconchegante de um bom suspense ou drama de consciência jurídico a incômodos e surpresas que parecem dizer respeito menos a uma reviravolta excepcional das circunstâncias e mais às condições dessa própria normalidade, tantas vezes dada como idílica ou ao menos representativa, tangível. Espaços e gestos são desnaturalizados. Não há propriamente revelação do artifício que compõe o mundo diegético: são as distinções entre aparência externa e interioridade que são colocadas em risco e ameaçam desaparecer. São filmes sobre a dúvida. E ela é contagiosa.

Se há dúvida, há também crença. Já foram feitas suficientes declarações tediosas a respeito da crença em Shyamalan, mas o fato é que o papel desse conceito nunca foi exatamente fixo ou declaratório em seu cinema. Seus personagens acreditam, é verdade, em várias coisas, mas é justamente a desestabilização da mudança nessa perspectiva que move seus momentos de decisão e epifania: descobrir uma camada a mais ou a menos na lente que se usa para apreender a realidade. Em Armadilha, embora estejamos acompanhando o ponto de vista do pai/assassino, cada momento do filme é definido pelos olhares das outras pontas da estrutura: o olhar de adoração e inocência de Riley, o cerco da investigadora do FBI, o voluntarismo idealista de Raven e por fim a lucidez terrível de Rachel (Alison Pill), verdadeira antagonista (e em certa medida, duplo em negativo) de Cooper. A partir da família, coloca-se em dúvida a individualidade, ser uma “pessoa inteira”. Não é por acaso que o verdadeiro campo de batalha seja na cozinha de casa.

Em Jurado Nº 2, a dúvida se contrapõe à fé no próprio conceito de justiça (“verdade em ação”). Menos que questionar se tal conceito é legítimo, o filme se dedica sobretudo à sua legibilidade. O júri anda em círculos e, quando uma decisão finalmente é tomada, acontece na elipse ou na arbitrariedade (o ex-policial interpretado por J.K.Simmons, personagem carregado de expectativa quanto a revelação de uma “verdade”, é logo retirado de cena sem a menor cerimônia). Kemp passa a maior parte do tempo tentando evitar a decisão definitiva entre salvar a si ou o falso culpado que é julgado em seu lugar, até que a virtude familiar seja o fiel da balança. No entanto, a dúvida pode ser afinal transmitida a ninguém menos que a promotora de acusação, Faith (Toni Collette). Embora seja apresentada como uma carreirista, ao ponto de usar o celular como viseira para evitar detalhes inconvenientes numa das primeiras cenas, é sobre ela que de fato pesa a tentativa de uma resposta legítima às questões morais do filme. As imagens da justiça vendada e sua balança pairam com insistência sobre as composições como se fossem crucifixos. Não é uma má equivalência – para o mundo provinciano que nos é dado a ver, assim como para o nosso, é da indignação sobre as vítimas não vingadas que emana o senso de certo e errado de uma comunidade. A resposta, no entanto, não nos é revelada. Depois de uma última troca de olhares entre Holt e Collette na porta de casa, apaga-se a luz. Ficamos com nossas questões, e elas não tem mais onde ir a não ser para dentro.