Tudo que é visível se deforma (ou uma nova mirada realista?)

Por Renan Eduardo

A teoria realista de André Bazin, em linhas gerais, é ancorada por alguns pilares indispensáveis como a mise en scène e a montagem. Incrustadas uma na outra, o autor defende que a baixa interferência da montagem, o tempo extenso dos planos e a profundidade de campo ampliada colocam o espectador numa relação mais próxima à realidade filmada, o que, por conseguinte, implica em uma “atitude mental ativa” do mesmo. Ao terminar de assistir O Auge do Humano 3, é difícil não lembrar de Bazin e indagar-se: o que ele pensaria após assistir um filme como este? A pergunta certamente é anacrônica e, logicamente, impossível de ser respondida. Entretanto, o filme de Eduardo “Teddy” Williams trabalha com um estilo indispensável para a teoria baziniana, ao passo que também os recusa ou, melhor, os deforma. Durante 120 minutos não apenas observamos, mas somos convidados a perambular, junto aos planos bem abertos e de longa duração, por Sri Lanka, Peru e Taiwan na companhia de diferentes grupos de jovens que conversam, dançam, cantam, nadam, se pegam e se embriagam.

O que destaca-se prontamente nesse perambular é a escolha de Williams pelo meio de registro. Utilizando-se de uma câmera que filma em 360 graus, as imagens de El Auge del Humano 3 ocupam um estatuto de visibilidade plena, ao passo que o dentro e o fora de campo parecem estar diante de novos limites. Contudo, o que tal dispositivo de “plena visibilidade” deflagra é, na verdade, a sua própria rasura. O jogo posto em El Auge del Humano 3 pertence a ordem da incompletude que tal empreendimento pela hipervisibilidade produz. Dialogando com os termos bazinianos de uma “mise en scène épica”, cuja composição imagética preza pelos vastos horizontes e os grandes planos de conjunto — que ressaltam o confronto do homem com a natureza —, o interesse de Williams não é, entretanto, o confronto de um homem solitário e seu cavalo contra a natureza, mas o deambular de corpos e histórias — desviantes nas mais variadas manifestações de desvios subjetivos — em determinados espaços. 

Ao elevar os tratados realistas de Bazin a uma magnitude insuspeitada e navegar na vastidão da profundidade de campo, o que Teddy Williams encontra não é uma janela para o mundo, mas sim  uma imagem carregada de ruídos, distorções e impurezas. O espaço do mundo social é restituído, mas tudo é tão visível que se deforma. O espectador, por sua vez, não está mais implicado em uma “atitude mental mais ativa”, sendo antes embebedado pelo flutuar da câmera e pelas intempéries que os corpos encontram pelo espaço. Se a locação é o mundo, a imersão é o caminhar.